dias de temporal em temperos outros

lisboa sobe e desce e brinca na gangorra
que vai do meu coração até a garganta
agora, há quem diga do que eu escrevo
e para quem, não preciso de um correio: chique
o misticismo corre solto, meu pulso de moedas ciganas vive sob mãos de gentes várias
e quando o céu evita o cinza
das nuvens intermináveis,
línguas se enrolam sem pressa

ainda sim, rasgo a boca num riso grande
para dizer que eu não moraria nessa cidade
que o descanso ainda é um desafio e que faltam
muitos decibéis para me sentir em casa
crio espaço para ouvir esse corpo
cada dia mais curisoso, que pede lentidão e juventude 
há pouco tempo respeito o que minha pele quer dizer quando fica mansinha e arrepiada

depois do cemitério, uma igreja, depois do operário,
um forró, depois do riso, um lençol
depois da morte, o profeta, depois das palavras,
o ritmo, depois da garganta, o gozo
depois da insegurança, o corpo nú, depois do joelho,
as coxas, depois do objeto, o desejo

foram muitos dias de chuva na varanda,
me recolhi ao quarto e dramatizei histórias simples
fiquei doente de aperto no peito e depois de aperto no nariz, assisti um filme em italiano
fotografei dois muros da cidade, um dizia
“caos e conchinha” e outro “a meta é meter”
e também duas bandeiras vibrantes, que diziam
“sinto muito por quem não sente muito”

quero também ser um escrito urbano e descolado,
aí tiro do bolso meu novo batom vermelho
e penso em usá-lo como caneta, no banheiro
da adega dos canários, decido pelo poema curto
mas logo desisto de irritar as pessoas que esperam
na fila, deixo só a minha marca na porta
enquanto lavo minhas mãos, digo ao espelho
que não sirvo tanto assim para rebeldias

depois do batom, o brilho, depois do trovão,
o borrão, depois das pedrinhas, pontinhos
depois do pescoço, um beijo, depois da altura,
o horizontal, depois do sim, barulho de portas
depois do som, uma dúvida, depois do místico,
o que diz o povo, depois de mim, eu de novo

quando lembro que meu compromisso
é mais sério com a fantasia do que com os fatos
me sinto mais forte que cachaça, mais leve que trufas,
e de conteúdo altamente inflamável
se hoje faço pouco caso das mentiras artesanais,
é porque meu perigo é elétrico e digitado
fica meu beijo para todos que farão
dos meus próximos versos, o entreterimento da noite

quem procura signo em verde bandeira, encontra borrões vermelhos em dois sorrisos frouxos
quem enrosca mindinhos em promessas de mistérios, acorda com energia de adolescente

apareço em braile; seu sentido é o tato; danço sua coreografia; agora você me deve o belisque
visto sua camisa; converso do seu jeito elétrico;
bom moço; é bom porque você é; reticências 

nosso riso não é de cócegas, é de conversa:
respira fundo até ficar sério, que eu rio de novo
faltou que eu gostaria de sentir pedacinhos do meu corpo colarem numa euforia particular
mas como somos fãs um do outro: se não entender, prepare um café, que eu traduzo o gosto

quando lembro que assinei um contrato perpétuo
com as despedidas e não com os encontros
me sinto mais casúlo do que gente,
mais avestruz no concreto do que uma mulher real
se hoje forço a memória da sorte e vivo em novos abraços, é porque meu estado é de paixão
deixo um pedaço dos meus quereres
em todos os menores poderes, e confio
menos no terror

lisboa escorrega e balança e acumula num chaveiro, chaves de portais para alguns paralelos
aqui, a vida tem um gostinho amargo de nunca mais, misturado com por favor, sempre mais
a pomba gira, gira tanto que, tatuou meus cinco
grandes tombos em três cicatrizes nas pernas
depois do casulo, as asas: à sombra do aeroporto,
minha mochila me faz parecer um besouro



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