em algum lugar ao oriente do mundo, numa feira barulhenta e de qualidade visual verde, um caranguejo ainda vivo rasga o plástico da bandeja que o prende e expõe. ao seu lado estão outros amigos, que logo tomam coragem para o mesmo ato. agora são três numa coreografia lenta: não há pressa para liberdade quando ela está sob a vigia da fome dos outros. a dança parece pensada para não ser revelada aos olhos humanos. movimentos inteligentes e precisos. fora isso, fingem de mortos, ou de comida. isso tudo num vídeo vertical do facebook, um dia desses. imagens que eu assisti até o final, sem lembrar que alguém teve que filmar, para que eu pudesse, às três da manhã embaixo de uma coberta, estar boquiaberta de ansiedade, torcendo para caranguejos como torço para o flamengo: porque não há outra opção correta. isso impede o rumo de um querido próximo longa dos estúdios pixar, uma vez que nunca o autor do vídeo permitiria a vitória dos crustáceos. o próximo vídeo é um nariz cheio de cravos. bloqueio a tela do celular e deixo os caranguejos e os cravos em cima da mesinha ao lado da cama. sinto meu corpo moído, mas é uma dor safada, que está junto de cenas que mostram o mapa dos meus músculos contraídos. abro um sorriso, acho graça de como minha mente quando descansada logo impede a histeria de desenvolver um pânico. justamente porque sabe que a resposta está em um filme vívido. acho que não vou conseguir dormir. vou para o quarto mental que eu construo desde criança, não lembro bem como começou essa viagem, mas desde que entendi que tenho imaginação, passei a visitar esse espaço visual. quando chego, há uma carta aonde está a ideia de uma gaivota dentro de um estúdio de música, de imediato fico feliz que jamais ela estaria coberta por um plástico. no mesmo espaço da gaivota, existem mais cartas, que embaçam naturalmente com o vapor de intensidades outras, como se escritas à dedo, num vidro. como nunca quis esgotar meus personagens e endereços de prosa, abro uma gaveta da minha cômoda de histórias, e decido abrir só quando eu for viver de novo. quero que os últimos traços sejam o início dos próximos. como falo mesmo tudo que sinto, não me aperta o coração, por isso até penso em falar sobre a importância de declarar afetos, mas desisto porque acho cafona. volto ao que fazia e fecho a gaveta. sento no chão da mente. olho para o meu mural de amores, pactos, desejos, medos, mistérios, meus próximos livros, minhas próximas obsessões esperando serem escolhidas, fórmulas mágicas, receitas em desenhos e de repente, antes que eu pudesse enxergar o próximo tema: um caranguejo solto! eu sou mesmo assim tão impressionada com bichos, por isso saio correndo pelos corredores da cabeça até voltar ao meu corpo moído. ufa, prefiro ficar com a memória de uma foda, que jamais estaria no mural, uma vez que fiz um compromisso mais sério com a casualidade e estou tentando largar o vício de tragar uma pessoa e soltar outra (ou seja, estou tentando parar de transformar todo mundo que eu desejo em história, pelo menos até o fim do ano, pois preciso terminar meu próximo livro). mas bastam dois segundos de um “jamais” para eu duvidar de mim. “olá!” eu escuto a dúvida dizer baixinho no canto da minha nuca. será mesmo que isso não está no mural? não fosse o caranguejo me espantar para fora, eu saberia. e é aí que… bingo! eu entendo tudo. puta que pariu. o processo desenrola rápido, não existem charadas, a narrativa está pronta. não há saídas. parece mesmo que eu te envolvi num plástico protetor das minhas ideias, e que estou esperando para ver como você fura e como você dança. quero que você veja como que eu te deixo livre mesmo te filmando, que eu faço que nem vejo que você foge, e é desse jeito que você chega ao meu mural. sacanagem. da próxima vez que eu for lá, ou eu entro com uma bandeja para te colocar de volta, ou vou ter que aprender a observar sua natureza sem medo. ao final, não importa. eu já perdi: aqui estou, te fazendo de tema.
Belo tudo o que escreve. Mas me dá sempre um nó na mente e me sinto meio sei lá sem saber se entendi ao certo tudo o que tá ali.
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