o mar de joão pessoa está marrom
piso na areia no ritmo das minhas justificativas
é o vento, é a maresia, é o tempo, vai passar
pisando em algas e torcendo para não ser peixe
peço que se desfaça a imagem de um corpo
azul dourado, que interrompe meus costumes
e minhas conclusões
no olho da minha mente eu não vejo
um ponto que também não seja uma vírgula
um traço que também não seja corrente elétrica
um travessão que não pareça um travesseiro
a agonia está entre parêntesis
sendo os parêntesis meus ouvidos
e entre meus dentes há uma conversa
sobre a falta do seu braço
micro-negócios da minha língua
aprenderam a dizer seu nome
boiando ao mar, entrei numa competição com o sol
enquanto minha pele torrava
eu bronzeava memórias
lembrei do dia que você disse “jogue vinte centavos
para Iemanjá e peça vinte e cinco milhões”
e completou “líquido”
eu fiz que tinha defeito nesse pedido
e fiz pouco caso
apertei 47 na máquina de bebidas e o destino ficou
por uma garrafa de água de plástico molenga
me esforcei para lembrar por onde andou aquele quarter, e parece que ao final foi você quem jogou a moeda para o cimento
não foi?
mirando o letreiro
que escancarava em vermelho neon
os nossos sonhos de crianças
que procuram amor na multidão
como se não fosse cair no jardim
embaixo da janela onde estavam
as nossas primeiras fãs internacionais
se eu tivesse vinte e cinco centavos agora
eu jogaria ao raro mar revolto do nordeste
e pediria que ele ficasse no manso azul turquesa
que eu gosto, pediria para enxergar essa cor
do jeito que ela pertence ao mundo, e se possível
algumas respostas menos poéticas do que as perguntas
quem é que deixou Caetano te escrever assim
desse jeito, ligando os breus?
quem é que deixou a patente aberta?
se eu te questionasse isso ou qualquer coisa
você responderia com um trovão e só
porque é assim que vai ser, combinamos
uma tempestade que dura janeiro inteiro
quiçá a eternidade, mas isso ainda não desenhamos
eu vou dizer oi e você vai dizer raio
eu vou dizer uma besteira
e você vai dizer um relâmpago
recado para se eu sumir:
por favor, destrua tudo comigo
cada um de um lado do para-raio
vamos acabar com a porra toda
é com o mesmo potencial de início
que eu quero o fim
uma hora eu acho que somos dois pentelhos apaixonados por preparar a paixão dos outros marinadas com temperos ardidos
enfiados dentro de um saquinho zip lock
para mais dar gosto
outra hora eu acho que somos dois leões famintos da mesma vontade
com uma só receita dentro de um vaso de cristal, que nada combina com as nossas patas
castanhas, ariscas, brutas, suadas e selvagens
não consigo decidir se nosso material é de pensamento, estrela ou bicho
vamos ver quem é que bronzeia mais
esse amor salafrário
tá ardendo?
vamos ver quem é que cuida
com gentileza do que não presta
que eu quero ver quem atira mais longe
a próxima moeda do destino
e se tiver bravura chore seu corpo em mim
deixe suas gotas cairem
por enquanto que ainda estou
com a boca aberta de sede
because people say stuff they don’t mean
all the time