poesia é o caralho: tudo que eu quero dizer um pagode já cantou

Queria anotar a minha vida assim. Organizada como deve ser. Desvendar uma narrativa numa gramática de sucesso. mas não adianta: eu continuo preferindo tudo em caixa baixa. preferindo saber compor um forró. trocaria a agonia da poesia por saber tocar acordeon. estou convicta de que tudo que eu queria dizer, um pagodeiro já disse. de um jeito leve e explicado, de um jeito olha o mate, o biscoito globo, sanduíche natural. eu endereço meus pensamentos de um jeito vesgo, como quando se olha para o meio da ponta do nariz. pelo menos é assim que eu acho. crianças ouvem que não se pode forçar a vista desse jeito, pois vai que passa um vento e congela para sempre? eu levei a sério a vida toda. tomo cuidado com os meus olhos expostos ao vento, ou por superstição ou por infantilidade, ou vai ver eu gosto é de acreditar nas coisas que os outros falam. não sei. quando o vento do norte da paraíba bateu tão forte na minha cara que eu tive que fazer dos meus olhos dois travessões, resolvi aproveitar o passeio de buggy meditando-entre-aspas. mas não deu tão certo, mais ou menos trinta pensamentos depois, eu desisti. pouco se fala como meditação parece muito com uma pré crise de pânico. por isso, não sou eu quem vai falar. estou a espera de um melhor cronista que desenvolva o tema. mas já que eu abri esse parêntesis, queria contar que eu acredito muito em crônicas e muitas vezes me pergunto se, por causa das redes sociais, mais especificamente o twitter – ou X, as pessoas perderam a esperança em quem conta histórias do cotidiano. eu tenho várias amarguras, essa não é uma delas. não só eu adoro ouvir e ler um causo qualquer, como procuro por todo menor sinal de mágica em qualquer uma dessas oportunidades. o que é fofo, mas também um problema. fico achando que nada pode ser só realidade, tudo tem que ter um toque fantástico. no dia vinte e oito de dezembro às nove da manhã, eu estava numa ligação com Mariana, que é vidente. claro. gosto de um spoiler do mistério, ou de qualquer jeito de chegar perto da minha bússola particular, ou de planejar ficar surpresa, ou tudo isso junto e mais uma coisa ou outra ou várias. eu não entendo como funciona o GPS e nunca me arrisquei a começar a ler sobre o funcionamento de satélites, mas o oculto é, para mim, igualzinho aos dois. pulei sete ondas no dia do réveillon, uma foi dedicada ao desejo de conhecer quem me lê. depois da meia noite, uma leitora me achou no meio da multidão e disse que leu meu livro e pediu uma foto e me abraçou. se isso fosse um tweet, seria acusado de mentira. se fosse crônica, era conto fantástico. para mim é o GPS, etc. dúvida mesmo, é a gramática de sucesso. Ou se devo anotar a vida assim. E questões outras que eu desenvolveria se não estivesse prestes a sair de casa para ir ao forró. vai que tudo muda! e eu aprendo acordeon!

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