abalos tímidos

ontem na praia, falei para João que o plano se existisse e fosse meu, era outro, pro que ele respondeu, Sim tem que ter plano, se não, como é que faz para se frustrar? Perfeito. no táxi de volta para o jardim botânico eu esquematizei a frustração. sairia às três da manhã, antes que o sol fizesse gracinha em seu peito e eu deitasse no morno, que contra esse tipo e luz é necessário esperteza. eu seria esperta e me arrumaria em movimentos pequenos. me levaria até a porta com os pés fazendo ponta. ao descer as escadas, sei que o coração vai implorar para voltar, mas me planejei, tudo certo, usaria de um antídoto antigo: pensar que já volto. pensar que já volto é outro nome para um quebra cabeça do que resta das minhas mini explosões. cato esses pedaços porque eu sempre espero que a razão seja estética e clara e nítida. espero, ainda por cima (porque quando o plano é meu tem que ter ousadia) que a estética me responda com olhos de Johannes Vermeer, e que ao me sentir encarada, eu desista finalmente de ouvir tanta coisa visceral e fazer disso reza. se o plano fosse meu, se essa rua fosse minha… é desde que te conheci que vivo ondas de abalos tímidos, pequenas vontades de explosões enormes, e toda hora um mini motivo para uma fuga máxima. cínica, depois que eu pensei tudo que eu tinha para planejar, fico com a vontade de aprender a sentir direito. feito gente e não poeta. é uma merda que pensar é diferente de sentir, infelizmente decidiram isso no design do nosso corpo, ainda por cima sem muito cuidado, nem bula. esse negócio da separação dos dois me dá uma sensação de infinito, mas de um jeito que me irrita, porque eu geralmente gosto do místico. me irrita principalmente porque, para sentir, eu preciso voltar ao seu peito e esperar que a luz bata morninha.

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