o problema de experimentar um coração bárbaro, é que na última mordida, esvai-se a coragem. o problema da coragem se esvair bem na hora de terminar de engolir um coração bárbaro, é que para engolir o pedaço final, é preciso ser selvagem. e tem gente que se permite estar satisfeito. existe mesmo isso de quem sabe dizer “estou cheio”. às vezes eu não acredito, mas é verdade, há satisfeitos por aí. estão por toda parte, aliás. outro dia mesmo eu conheci um satisfeito. beijei a boca dele e não senti nada. vai vendo. quando é você o coração bárbaro, e o outro a te engolir, é necessário desmanchar-se em pedaços, mesmo sem saber quantos serão necessários para preencher o desejo de que tem fome. eu sou uma pessoa triste porque conto demais com a selvageria do outro. uso a cara de pau para dizer que sim, eu espero que o antídoto para minha angústia – seja ela tamanho de criança ou de adulto – seja a vontade que o outro tem de mim. “algo vai me digerir,” que eu fico pensando, “uma hora vai”, que eu falo. na próxima uma cidade, numa próxima paixão, no próximo vôo, eu te escrevo hein, e vamos vendo que eu vou chegando, vamos falando, e vamos marcando. tudo isso num cinismo enorme. porque fico aumentando de tamanho só para testar o quanto que o outro consegue. aí é que vou sucumbindo mesmo, a todo drama anunciado em bilhetes com alfinetes no mural da mente, que prazer! ainda por cima digo que choro muito mais do que derramo lágrimas. tenho problemas com chorar, e há quem diga que isso não combina comigo, mas pode crer, eu sou mesmo bem entalada. tenho aproveitado que estou no rio de janeiro para encontrar com meu terapeuta presencialmente. mudei também a abordagem. depois de anos na análise, agora ando fazendo exercícios de gritos em almofadas. encosto o pé no chão a pedidos – entre mil e uma manias, a de sentar com os pés para cima sempre foi uma coisa “muito eu” – sinto uma estranheza, e peço “me ensina a chorar, Gustavo”. entre outros desafios, parece que preciso aprender a espalhar a raiva por todo o corpo. parece também que, sou mais perversa do que sou melodrama. outra coisa que também não combina tanto com meu eu lírico. grande parte é culpa do sorriso frouxo. vai ver eu tenho um trema no topo da cabeça, sou assim um sorriso ambulante. falo rindo. tenho essa alegria. mas pode crer, sou triste e sou raivosa. dia desses, perdi meus braços e mãos enquanto fazia sons propositalmente animalescos, e senti existir e esquentar, só o meu peito e a minha garganta e o rosto. “sinto muita coisa no rosto, assim, nas bochechas” que eu disse depois do exercício. e com os extremos dormentes, me assustei. faço pouca divisão da histeria. organizo melhor a obsessão. nesse ponto sou clássica. dias depois, anoto em uma folha que estou triste. logo depois conto para a mesma folha que na verdade eu não sei. sinto uma dívida crescer todos os dias. falo dívida porque estou preguiçosa para desenvolver meus auto-temas de cobrança. ontem, ao telefone com Gabriel, amigo tão querido, nos perguntávamos por onde é que andam os nossos iguais. rindo também sobre como não sabemos a hora de parar de falar. a hora de parar destrinchar significados. “e ta tudo bem também, se uma bolinha preta for só isso mesmo, não tem que ter nenhuma poesia” que a gente ensaiava um para o outro. e quem é que nos devora do jeito que devoramos, questionamos pela tela do telefone. e porque é que estamos sempre tão atraídos pela ideia da coragem, mas vamos sempre em queda livre pelos covardes. há dias que eu sonho que estou encarando o pedaço restante do meu coração. ele é pequeno e vermelho, e está estirado numa louça pintada por algum difunto da família Romano. são as louças que meu pai adorava e deixou de herança, mas que até hoje não foram divididas, pois meus irmãos e eu, não sabemos como fazer essa justiça. acordo com uma queimação: vai ver às vezes eu valho a pena, mas também sou restos. fui amada, mas se empanturraram de mim. sou uma delícia, mas também vou para o lixo. tem gente que sabe a hora de parar. e que desgraça eu ser assim tão arrogante!