converso com o rio e vez por outra
ele conversa de volta, tem acontecido
um processo de fazer as pazes
me sinto dentro de uma camisa grande
a minha Eu Num Quarto abraçando
a minha Eu Em Todo Canto
queria não precisar organizar em versos
os meus últimos romances, mas é preciso
também porque eu inventei agora que é
porque não sei fazer a pontuação correta do desejo
e nem sei escorrer a prosa de gostinhos menores
dois caras e uma carreira: um deles me pede desculpa pelo nariz, e o outro, depois de me vender um isqueiro, quer também cheirar meu perfume e saber minha opinião sobre a falta de música
em bancas de jornais do rio de janeiro, respondo com a bochecha encolhida e a sobrancelha dura
agora têm cinquenta e sete tópicos acumulados de terça a sexta, e sob a mesa de bar, são outros vinte que surgem parar levar os minutos embora
eu sou Ex Zona Oeste e ele uma correntinha balançando no rosto: começo a calcular a quantidade de vezes que lambi Marte em Virgem
tudo em defesa da narrativa, arrisco desafiar a matemática, porque como conto, quando eu era Zona Oeste, só escrevia meu nome e entregava questionários em branco, muito porque a certeza era uma coisa mais achismo
quem dera se a angústia sempre liderasse a pressão, é que às vezes é o medo, e quando é o medo o líder, resta um toque de ombros ardidos, bronzeados, uma coisa assim meio salgada, meio respingo de limão de torresmo na pele
e desde então, ando pensando se queimar direito é bancar os escapes, mas ainda não decidi nada sobre isso, ando assim tão teimosias e brigadeiros
subo escadas do morro do pinto, a pedidos, um convite de “não tem em nova york” que eu confirmo várias vezes Durante A Noite Que Só Começa Porque É Durante E Assim Infinita
vejo que pessoas molhadas estão felizes porque estão moles, e descubro, enquanto minha vista faz que não perdoa, que não deveria existir movimento sem samba, só mesmo no ritmo do intervalo
mas enquanto isso, com duas cinturas se faz muita coisa que eu gosto muito para caramba assim
Maria e Eu. é ela que entende o ponto depois do Eu
é mesmo uma festa qualquer coisa que é Maria e Eu
a gente toca em tudo, procura os cantos! e fica! fala!
e como ri e como pergunta! é como é Eu! e é Maria!
O Romance Mais Real na areia de apartamento
num café em Botafogo, levo um susto com uma mão, que depois eu descobri ser tão bonita, mais ainda porque é torta, mais ainda porque não vira no grau que tem que virar, mais ainda porque me toca para além do ombro, e aí, agora, invento que sustos são selinhos do acaso e sussurro: adorei
no túnel rebouças, um carro de funerária está preso no mesmo trânsito que eu, viva
“nem mesmo morto se livra do caos do rio de janeiro”, que diz o motorista do uber, e eu espero morrer antes da hora do rush, mas acredito que o contrário seja mais a minha cara, uma coisa assim seis da tarde, sexta feira, pré feriado
se estou pensando sobre morrer no rio
é porque finalmente posso nascer aqui
um alívio como água fervendo com sal
e uma estratégia em banho maria
ainda sim acredito nessa busca de riso–ravioli
que os recheios são sempre uma aventura massa
(que terrível o trocadilho, favor perdoar)
para amigos queridos e quem mais queira ouvir