no dia primeiro de abril de dois e vinte um, a luz do abajur de um quarto iluminava um corredor de portas brancas: para casas, só gosto de amarelo potente. a esperança, naquela época, dormia entregue a lua a domicílio, e ao que vem depois do grito, e ao relógio, e não importava se era ciência ou sintoma. você, quando saía, não levava as chaves de casa, afinal, sou eu mesma o abajur amarelo potente de um quarto em retângulo, vibrando na potência que você precisar. para ser sujeito de novo, preciso lembrar que nada bonito às três da manhã periga na deriva da nuvem do futuro e do pulso, ou chega sem cumprimentar. é que para ser bonito de madrugada, precisa escolher não matar o afeto. é preciso saber não matar o afeto às três da manhã. e para isso precisa ser gente e não abajur. naquele dia você pisou tão forte nos tacos do chão do Brooklyn, e bufou como um urso de olhos vermelhos, e foi tanto bicho, que nem parecia o meu amor. me encolhi na cama, esfreguei as pernas, a testa, a sobrancelha. eu era inteira a minha própria barriga remexida de comida chinesa quando o amor saía pra dançar agarradinha e voltava com o lábio de álcool. ao invés de sonhar o inconsciente, eu desenhava um sonho no teto, dolorido de propósito. imaginava um quadril mais largo que o meu, mais caribenho que o meu, cabelos retos e esvoaçantes, ombros pequenos, ossos saltitando, um cheiro de cigarro com qualquer bebida que eu odeio: tudo isso em você, para você, como um feitiço, e eu desmoronando, fazendo da cama um buraco, depois virando o próprio buraco, alternando entre ser um poço feito por humanos ou um fenômeno natural de erosão. eu nunca sei se meus medos são de fruta ou de bala industrializada. digo, nunca sei se o meu medo é natural ou fabricado. mas acho que tenho certeza que sobreviver é pouco. eu fico achando que tenho certeza que preciso conseguir ser uma coisa só e ainda por cima viva. mas dentre todas as coisas que eu ainda sou e fico sendo, só de teimosia, várias estão mortas. se eu me olhar por muito tempo ao espelho, talvez encontre galhos secos no lugar de minhas mãos e plantas-marrom saindo do topo da cabeça. ou sei lá, um dia eu vou tossir a dormideira que vive presa em minha garganta. por enquanto meu espelho é um bloco de notas, do muito digital que tenho sido, e vez por outra procuro datas no passado para ver se vejo mudanças do jeito ou do modo. encontro o início desse texto e percebo que só posso continuá-lo agora, em abril de dois mil e vinte e quatro. é que nesse mesmo dia, eu andei do arpoador até o o fim do leblon, o trecho de ida e o trecho de volta, tagarelando com uma companhia que sabe não matar o afeto às três da manhã. nesse caso, inclusive, ele começa quase cinco, num quase sol, com o uber já lá embaixo, ligando para saber se vai ou se fica, enquanto as notificações do mundo somem em beijos, e o que resta ao final, é a minha posição preferida anti-buraco (e também uma péssima avaliação de aplicativo). a posição preferida é uma em que eu sinto o coração do outro em meu ouvido, para assim lembrar que o meu também existe. cria-se assim um protesto em bpm natural, uma marcha horizontal e parada, contra ser uma coisa só potente, mas para ser um bloco de gente deitada, que divide uma esperança, uma que existe entre a matemática e o sintoma. agora é possível continuar um parágrafo de dois mil e vinte e um, porque faz tempo que não converso uma conversa onde galhos não substituem mãos, mas sim meus pensamentos, e as folhas que brotam no topo da cabeça são comestíveis e verdinhas; que duas camas de solteiro fingidas de casal, fazem o cenário perfeito para relatos de discos voadores, as histórias mais ilícitas e um passeio por dois passados tão desiguais; que dois solteiros fingidos de casal, fazem o cenário perfeito para ser o que quiserem, seja numa corrida hipotética pelados pela avenida atlântica, ou na construção de uma bio tipo marília gabriela, ou uma bio para existir lado a lado em formato apresentação de ideia, ou dois amigos que compartilham as grandes faltas. mesma página. às dez e quarenta da manhã do dia seguinte, recebo uma mensagem afirmando a reciprocidade dessa sensação, desse gostar tanto do papo longo. me deixo emocionar pela palavra digitada, sinto o rosto quente e sorrio. mesmo sabendo que os níveis de entrega serão, muito provavelmente, desproporcionais. mas não sei se isso é da qualidade astral ou dos meus medos naturais ou fabricados. isso seria eu em outro texto. o que acontece é que, logo depois, ao meio dia, em uma ligação, ouvi que era difícil conversar comigo. o rosto esquentou de outro jeito, um muito ruim. o que foi igual, é que eu sorri. sorri porque não me coube. porque não estou mais tão em amarelo, porque me permito estar debaixo dos postes florescentes da orla do rio de janeiro. e sei terminar esse assunto, porque vou dizer que isso vai depender da posição que dorme a esperança, se a lua é a domicílio ou não, que sou da marca de gente que gosta do compromisso conjunto com a vivacidade da madrugada, e que não faço mais tantos desenhos no teto. quero, cada vez mais, me permitir aos intermináveis parênteses abertos por gente que não sabe calar a boca. ainda por cima me preparo para desenhar o presente de um jeito mais lúdico propositalmente menos dolorido. planejo uma foto mental de um rosto que tem um sinal que parece uma lágrima, digo “assim tá lindo”, concordamos que é necessária a baixa velocidade, preparo uma câmera que faço com a mão, faço o click com língua e a bochecha, e fotografo um tagarela com o rosto apoiado no braço da varanda de um hotel barato, um que diz logo depois que, mesmo com muito sono, ficaria naquela posição até as sete da manhã, só inventando história para quem passar na avenida. que delícia atualizar o dia primeiro de abril com uma verdade recente, e quase nenhuma trapaça ou perigo por perto. que delícia!