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saí do correio esperando a chuva que cai humoristicamente em todo grande evento da minha vida. viro o pescoço para cima em protesto, mas não há o menor sinal de tempo ruim. nova york tem um cinismo: no verão, as ruas fazem que jamais seriam de neve. fazem que não seriam capazes. arranha-céus cobertos por nuvens só mesmo em cenas de filme: na realidade, flores aparecem bonitas como se jamais fossem galhos ressecados e molengas. nova york no verão finge que é verão o ano inteiro. nova york faz isso porque tem muita inveja do rio de janeiro. como qualquer outra cidade do mundo tem. há um porém: ao longo desses oito anos tão abençoados quanto malditos, coleciono histórias de chuva em dias importantes, ainda que no cinismo do alto verão. mesmo antes: das memórias que tenho dos dezoito anos que vivi no rio de janeiro, o que tem de oficial é molhadíssimo. rebobino as grandes chuvas e as vejo em todas as minhas conquistas, formaturas, assinaturas, términos, sexos, encontros, frustrações, sambas, forrós, assaltos, festas, crises, cortes, mudanças, primeiras vezes e últimas vezes. minha mãe sabe, e como ela é testemunha, eu não preciso mais que ninguém acredite. por isso não estou interessada a convencer você, leitor, de nenhum misticismo meu com a chuva. basta minha mãe e só. algum ser precisa ser supremo de vez em quando. conto em poucos dedos os meus aniversários que foram ensolarados. por isso fiz tanto gosto de passar meu dia em Nápoles no ano passado, já que é um feriado onde tradicionalmente o céu fica coberto por uma chuva específica: muitos fogos e muitos fogos e muitos mais fogos. por causa desse humor climático, fico irada que meu cabelo sobreviveu péssimo aos dias tão marcantes da minha história. tenho certeza que o meu dia mais bonita até hoje foi uma segunda feira aleatória e ninguém me viu. porque nos dias que estive para o mundo, provavelmente apareci derretida e eletrizada apenas de frizz. como foi o dia onze de julho de dois mil e dezenove, quando eu casei sob um temporal com direito a ameaça de ciclone. os convidados todos encharcados. o meu vestido branco terminava numa barra preta de lama. ao menos foi democrático: a beleza de todos se esvaiu e foi um casamento cheio de gente se achando feia. ríamos muito a cada taça de vinho servida por um garçom italiano de topete desmoronado. a lona do jardim voava em direção aos nossos corpos e gotículas geladas se misturavam com o suor do calor extremo que fazia. quase quarenta graus e ainda sim nada de sol. apesar da graça dessas histórias, jamais fiz romance da chuva. por exemplo, não consegui fazer as pazes com as fotos da cerimônia. acho tudo terrível. sem contar que a histeria foi tão grande que, menstruei no meio da festa, enquanto pensava em como traduzir a frase “estão gostando dos canapés?” para convidados que não falavam português. agora, me interrompe um pensamento: esse meu vestido de noiva que tem uma enorme mancha de sangue, hoje está empoeirado em algum lugar longe de mim. tentei muitas comunicações para tê-lo de volta. implorei, até. argumentei que queria muito guardá-lo, sei lá por qual motivo, mas queria. mas não obtive respostas do pedido. há um mês existe um silêncio absoluto funcionando como guia para qualquer tentativa minha de respiração ou fala. agora estou analisando esse querer, e quando digo agora, digo agora mesmo, enquanto decido sobre o que é mesmo que estou escrevendo, e como vim parar nesse pensamento do vestido. surge numa paranoia e acho que estou me expondo demais. ao mesmo tempo quero contar que já não sei mais onde caber, e que por vezes me incomoda existir em palavras num fundo branco digital. ao mesmo tempo estou alegre que esse é meu tipo de selfie. ou o meu tipo de reels. tenho blog desde os onze anos de idade. não me orgulho, deveria ter subido numa árvore, mas não subi. ao invés de cicatrizes no joelho, tenho memórias sonoras de intermináveis conversas no MSN com amigos virtuais que até hoje não sei quem são. nunca soube. como resultado, sinto falta de um monte de username que eu batia papo em flogs, blogs e fóruns. penso como que é possível que eu nunca me importei de perguntar o nome dessas pessoas. penso que na verdade eu sem querer ou por querer, sempre fui de algum jeito um fundo branco digital. novamente não sei como vim parar nesse assunto, mas fiz um gancho de sentido para meu mercúrio em virgem: acho que estou vivendo de novo o luto de ver morrer uma pessoa que eu aparentemente só conhecia o username. me volta do estômago uma lembrança: nos votos do casamento, escolhemos por coincidência, falar do significado dos nossos apelidos. choramos ao ver que decidimos o mesmo tema. o amor parecia telepatia. nalu também quer dizer onda e nossos nomes juntos faziam uma grande metáfora, ou piada, ou premonição, já não quero dizer. nossos nomes juntos fazem um caixote, ou um caldo, ou um tsunami, já não quero dizer. não que eu não seja também uma estranha de mim mesma, e completamente perdida em todas as minhas personas e apelidos, ainda conto mais, estou insuportavelmente mudando muito rápido para caramba, principalmente hoje em específico. hoje eu não quero nem ser mais a mesma que iniciou esse texto sobre a chuva ou sei lá o que mais! tenho preguiça (e uso a palavra preguiça por preguiça de pensar em algo mais nobre que defenda melhor o desejo) de concluir pelo início. hoje é um dia marcante e ainda sim ensolarado, portanto, desconhecido. hoje, nossos nomes se uniram ao cinismo do verão que jamais molhou ou girou antes. tudo seco e sem força. parece que ninguém nunca viu o mar. parece que ninguém nunca ficou tonto. é de novo muita inveja do rio de janeiro. não estou passando um ar de sanidade, eu sei, mas julgo que estou vivendo esse dia de um jeito sábio. ainda que não tenha a menor familiaridade com esse tipo de construção de memória. antes de virar o pescoço para cobrar do céu uma chuva, ainda dentro do correio, eu pensava na assinatura do meu nome viajando com aquelas outras palavras em serifa, dentro de um envelope, dentro de uma van estadunidense, tudo em velocidade super-sônica, pois chega ao destino até amanhã ao entardecer, e é bom mesmo que chegue, afinal paguei quarenta e cinco dólares para que aconteça. esse é um bom exemplo de um querer maior do que resgatar o meu vestido sangrento e enlameado. antes do correio, pesquisei o lugar mais próximo para fazer a notoriedade da minha assinatura, no google era um escritório, e na vida real era a sala de estar de uma imigrante polonesa muito simpática. enquanto ela fazia os carimbos, eu observava o improviso da casa misturada com estabelecimento, o cheiro de família adocicando o cheiro dos papeis, a porta residencial com uma placa avisando um comércio, a piranha em seu cabelo que gritava maternidade e sob seu colo uma gola de linho que tentava maior seriedade. “te achei tão nova antes, quando você entrou”, ela disse. “agora não mais?” eu brinquei. ela respondeu num tipo de humor chuvoso, que é o meu favorito, “ser divorciada é coisa de gente velha, não importa mais a sua idade, você agora é esse status, minha querida” e me devolveu o papel para que eu levasse ao correio.

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