adoro que tórax também é substantivo plural

você acha que sabe tudo o que eu penso porque eu finjo que falo tudo o que eu penso. acha que entendeu tudo sobre mim porque pensa que meus dados são disponíveis para download craqueado. eu criei várias fantasias de mim mesma. rá. um cavalo de tróia no seu disco. ou o melhor e mais cafona compilado automático da galeria do seu celular. poeira no ouvido ou zumbido no umbigo. é fato. estou dando poder demais para pessoas esquisitas e percebo que pensamentos acelerados fazem rabiscos com rostos em minha testa. são tempos tenebrosos para pausas. sinto minhas observações saindo de todos os buracos e entrando em todos os buracos. dias em que somente o tórax dos desconectados é que podem as vírgulas. eu sou um tórax percorrido porque fiz um mapa especial de acessos para todas as pessoas que me cruzaram. mas não se deixe enganar pela minha mania de pequena virgem. eu que dei o compasso porque não sou boazinha. ainda sobre o tórax dos desconectados eu posso dizer que infelizmente gosto. vou fazer o quê. me diz. estou mesmo cada dia menos original e mais monotemática. ao menos ainda não sei se existe mais do que um tipo de couve. tomara que ninguém me conte mais nada nunca até o final desse dia. é o brooklyn em fade in e o arpoador em honey skin. preciso admitir rapidamente o desejo que há em mim e que é especial sobre o inacessível. assumir que essas grandes dores atuais também são grandes prazeres atuais e que eu coloco todos de VIP no tórax para que fiquem todos cercados. especiais porém cercados e controlados e com nome na lista e pulserinha e o CPF na nota senhor. Padre Eu Não Posso Ver O Outro Que Eu Quero Muito Querer Pouco Para Que Então Eu Queira Ainda Mais. já que estou numa pira de confessar eu diria mais ou menos isso no confessionário de uma igreja bem gótica. adoro cenas de filme em que mulheres chocam padres. um fato misturado de incerteza é que talvez eu só possa o lúdico. não é seguro viver dentro da minha cabeça nem muito menos fora dela já que fora tudo é tesão. perigos perigosos perigosíssimos que eu adoro. berlinda! prancha de pirata! lareiras tropicais! digo que preciso admitir rapidamente mas não no sentido da pressa pois tenho interesse em ser mais lenta às vezes. é rapidamente no sentido de dizer logo tudo de uma vez como fiz na última sessão de análise quando disse correndo com o peito Gustavo Eu Estou Atraída Pela Indisponibilidade Das Coisas Mas Não Sei Exatamente Se É Isso Mesmo. ao mesmo tempo não sei explicar a necessidade dessas administrações e confissões serem elaboraras uma vez que jamais eu tive real interesse pela solução dos meus problemas. é verdade. estou cansada de assuntos de sintoma porque sou cada vez mais irredutível na contradição. aqui onde moramos eu e minhas obsessões histéricas somos um sistema não identificado entre o pensar e o sentir e entre limpar e sujar e preto e branco. dos binários mais tediosos e mascando chiclete com marcas na pele do cotovelo. vira e mexe dou umas de moralista mas é só comigo mesma. é uma porra essa caralha. O Narrador Diz Que Ela Internalizou Um Pai Que Castiga. ah cala a boca eu nem gosto desse tipo de narração. de volta. ao invés das bizarrices que me contemplam eu decido dar para minha minuciosa vênus em virgem uma permissão para que eu aperte os olhos como lâminas e perceba absolutamente tudo sobre você. para que não veja mais nada esquisito em mim. absolutista e monárquica eu desfaço seu manto e te tiro do mesmo trono que te dei. em palavra sem bombril: Minha Amiga Falou Que Eu Te Dei Moral Demais. te cortando eu vejo seu medo ardendo para fora da pele e é tudo bem doce e nada salgado. lambo. Minha Amiga Falou Que Eu Sou Mais Interessante Que Você. consigo também ver o incomodo do seu corpo se contorcendo para longe no frio proposital. nevo. Minha Amiga Disse Que Daqui Dez Anos Você Vai Entender Mulheres Como Eu Mas Por Enquanto Não. vai saber. nada desse ver é místico porque foi você que me disse tudo e eu guardei como material para o caso de uma paixão. agora que não tenho mais o que fazer com as observações elas decidem sozinhas vazar pelos buracos. tudo está acelerado. inclusive você aqui por aqui. agora me lendo e procurando alguma qualquer pista para entender se é sobre você mesmo. quem quer que você escolha ser saiba que têm pelo menos sete versões suas em mim e cada uma delas é uma pessoa que existe. procuro sempre a mesma pessoa. como leitor sugiro que agora seja uma pausa como escritora eu não tenho interesse. que talvez seja eu mesma. saiba você de mais coisas. saiba que eu beijei e elegi favoritos no mesmo pódio e mantive todos os narizes tapados inclusive o meu. vários peitos em pânicos conjuntos. quase sempre as mesmas palavras em versos ou blocos ou quadrinhos. é meu vício é meu charme é meu jeito é tudo meu quando eu crio até que a fantasia acabe. por isso invento você repetidas vezes. e fico a te cuspir em todas as versões porque ainda não descobri como que a invenção ultrapassa a velocidade do rabisco na minha testa. quando vejo já é terça e do nada mais uma vez estou me despindo de sei lá o que e para quem. confesso que para mim você meu querido destinatário funciona no plural como tórax.

foto mental em baixa velocidade de um rosto apoiado numa varanda de hotel barato

no dia primeiro de abril de dois e vinte um, a luz do abajur de um quarto iluminava um corredor de portas brancas: para casas, só gosto de amarelo potente. a esperança, naquela época, dormia entregue a lua a domicílio, e ao que vem depois do grito, e ao relógio, e não importava se era ciência ou sintoma. você, quando saía, não levava as chaves de casa, afinal, sou eu mesma o abajur amarelo potente de um quarto em retângulo, vibrando na potência que você precisar. para ser sujeito de novo, preciso lembrar que nada bonito às três da manhã periga na deriva da nuvem do futuro e do pulso, ou chega sem cumprimentar. é que para ser bonito de madrugada, precisa escolher não matar o afeto. é preciso saber não matar o afeto às três da manhã. e para isso precisa ser gente e não abajur. naquele dia você pisou tão forte nos tacos do chão do Brooklyn, e bufou como um urso de olhos vermelhos, e foi tanto bicho, que nem parecia o meu amor. me encolhi na cama, esfreguei as pernas, a testa, a sobrancelha. eu era inteira a minha própria barriga remexida de comida chinesa quando o amor saía pra dançar agarradinha e voltava com o lábio de álcool. ao invés de sonhar o inconsciente, eu desenhava um sonho no teto, dolorido de propósito. imaginava um quadril mais largo que o meu, mais caribenho que o meu, cabelos retos e esvoaçantes, ombros pequenos, ossos saltitando, um cheiro de cigarro com qualquer bebida que eu odeio: tudo isso em você, para você, como um feitiço, e eu desmoronando, fazendo da cama um buraco, depois virando o próprio buraco, alternando entre ser um poço feito por humanos ou um fenômeno natural de erosão. eu nunca sei se meus medos são de fruta ou de bala industrializada. digo, nunca sei se o meu medo é natural ou fabricado. mas acho que tenho certeza que sobreviver é pouco. eu fico achando que tenho certeza que preciso conseguir ser uma coisa só e ainda por cima viva. mas dentre todas as coisas que eu ainda sou e fico sendo, só de teimosia, várias estão mortas. se eu me olhar por muito tempo ao espelho, talvez encontre galhos secos no lugar de minhas mãos e plantas-marrom saindo do topo da cabeça. ou sei lá, um dia eu vou tossir a dormideira que vive presa em minha garganta. por enquanto meu espelho é um bloco de notas, do muito digital que tenho sido, e vez por outra procuro datas no passado para ver se vejo mudanças do jeito ou do modo. encontro o início desse texto e percebo que só posso continuá-lo agora, em abril de dois mil e vinte e quatro. é que nesse mesmo dia, eu andei do arpoador até o o fim do leblon, o trecho de ida e o trecho de volta, tagarelando com uma companhia que sabe não matar o afeto às três da manhã. nesse caso, inclusive, ele começa quase cinco, num quase sol, com o uber já lá embaixo, ligando para saber se vai ou se fica, enquanto as notificações do mundo somem em beijos, e o que resta ao final, é a minha posição preferida anti-buraco (e também uma péssima avaliação de aplicativo). a posição preferida é uma em que eu sinto o coração do outro em meu ouvido, para assim lembrar que o meu também existe. cria-se assim um protesto em bpm natural, uma marcha horizontal e parada, contra ser uma coisa só potente, mas para ser um bloco de gente deitada, que divide uma esperança, uma que existe entre a matemática e o sintoma. agora é possível continuar um parágrafo de dois mil e vinte e um, porque faz tempo que não converso uma conversa onde galhos não substituem mãos, mas sim meus pensamentos, e as folhas que brotam no topo da cabeça são comestíveis e verdinhas; que duas camas de solteiro fingidas de casal, fazem o cenário perfeito para relatos de discos voadores, as histórias mais ilícitas e um passeio por dois passados tão desiguais; que dois solteiros fingidos de casal, fazem o cenário perfeito para ser o que quiserem, seja numa corrida hipotética pelados pela avenida atlântica, ou na construção de uma bio tipo marília gabriela, ou uma bio para existir lado a lado em formato apresentação de ideia, ou dois amigos que compartilham as grandes faltas. mesma página. às dez e quarenta da manhã do dia seguinte, recebo uma mensagem afirmando a reciprocidade dessa sensação, desse gostar tanto do papo longo. me deixo emocionar pela palavra digitada, sinto o rosto quente e sorrio. mesmo sabendo que os níveis de entrega serão, muito provavelmente, desproporcionais. mas não sei se isso é da qualidade astral ou dos meus medos naturais ou fabricados. isso seria eu em outro texto. o que acontece é que, logo depois, ao meio dia, em uma ligação, ouvi que era difícil conversar comigo. o rosto esquentou de outro jeito, um muito ruim. o que foi igual, é que eu sorri. sorri porque não me coube. porque não estou mais tão em amarelo, porque me permito estar debaixo dos postes florescentes da orla do rio de janeiro. e sei terminar esse assunto, porque vou dizer que isso vai depender da posição que dorme a esperança, se a lua é a domicílio ou não, que sou da marca de gente que gosta do compromisso conjunto com a vivacidade da madrugada, e que não faço mais tantos desenhos no teto. quero, cada vez mais, me permitir aos intermináveis parênteses abertos por gente que não sabe calar a boca. ainda por cima me preparo para desenhar o presente de um jeito mais lúdico propositalmente menos dolorido. planejo uma foto mental de um rosto que tem um sinal que parece uma lágrima, digo “assim tá lindo”, concordamos que é necessária a baixa velocidade, preparo uma câmera que faço com a mão, faço o click com língua e a bochecha, e fotografo um tagarela com o rosto apoiado no braço da varanda de um hotel barato, um que diz logo depois que, mesmo com muito sono, ficaria naquela posição até as sete da manhã, só inventando história para quem passar na avenida. que delícia atualizar o dia primeiro de abril com uma verdade recente, e quase nenhuma trapaça ou perigo por perto. que delícia!

sal, maria e ravioli

converso com o rio e vez por outra
ele conversa de volta, tem acontecido
um processo de fazer as pazes
me sinto dentro de uma camisa grande
a minha Eu Num Quarto abraçando
a minha Eu Em Todo Canto

queria não precisar organizar em versos
os meus últimos romances, mas é preciso
também porque eu inventei agora que é
porque não sei fazer a pontuação correta do desejo
e nem sei escorrer a prosa de gostinhos menores

dois caras e uma carreira: um deles me pede desculpa pelo nariz, e o outro, depois de me vender um isqueiro, quer também cheirar meu perfume e saber minha opinião sobre a falta de música
em bancas de jornais do rio de janeiro, respondo com a bochecha encolhida e a sobrancelha dura

agora têm cinquenta e sete tópicos acumulados de terça a sexta, e sob a mesa de bar, são outros vinte que surgem parar levar os minutos embora
eu sou Ex Zona Oeste e ele uma correntinha balançando no rosto: começo a calcular a quantidade de vezes que lambi Marte em Virgem
tudo em defesa da narrativa, arrisco desafiar a matemática, porque como conto, quando eu era Zona Oeste, só escrevia meu nome e entregava questionários em branco, muito porque a certeza era uma coisa mais achismo

quem dera se a angústia sempre liderasse a pressão, é que às vezes é o medo, e quando é o medo o líder, resta um toque de ombros ardidos, bronzeados, uma coisa assim meio salgada, meio respingo de limão de torresmo na pele
e desde então, ando pensando se queimar direito é bancar os escapes, mas ainda não decidi nada sobre isso, ando assim tão teimosias e brigadeiros

subo escadas do morro do pinto, a pedidos, um convite de “não tem em nova york” que eu confirmo várias vezes Durante A Noite Que Só Começa Porque É Durante E Assim Infinita
vejo que pessoas molhadas estão felizes porque estão moles, e descubro, enquanto minha vista faz que não perdoa, que não deveria existir movimento sem samba, só mesmo no ritmo do intervalo
mas enquanto isso, com duas cinturas se faz muita coisa que eu gosto muito para caramba assim

Maria e Eu. é ela que entende o ponto depois do Eu
é mesmo uma festa qualquer coisa que é Maria e Eu
a gente toca em tudo, procura os cantos! e fica! fala!
e como ri e como pergunta! é como é Eu! e é Maria!
O Romance Mais Real na areia de apartamento

num café em Botafogo, levo um susto com uma mão, que depois eu descobri ser tão bonita, mais ainda porque é torta, mais ainda porque não vira no grau que tem que virar, mais ainda porque me toca para além do ombro, e aí, agora, invento que sustos são selinhos do acaso e sussurro: adorei

no túnel rebouças, um carro de funerária está preso no mesmo trânsito que eu, viva
“nem mesmo morto se livra do caos do rio de janeiro”, que diz o motorista do uber, e eu espero morrer antes da hora do rush, mas acredito que o contrário seja mais a minha cara, uma coisa assim seis da tarde, sexta feira, pré feriado

se estou pensando sobre morrer no rio
é porque finalmente posso nascer aqui
um alívio como água fervendo com sal
e uma estratégia em banho maria
ainda sim acredito nessa busca de riso–ravioli
que os recheios são sempre uma aventura massa
(que terrível o trocadilho, favor perdoar)
para amigos queridos e quem mais queira ouvir

justiça para louças pintadas

o problema de experimentar um coração bárbaro, é que na última mordida, esvai-se a coragem. o problema da coragem se esvair bem na hora de terminar de engolir um coração bárbaro, é que para engolir o pedaço final, é preciso ser selvagem. e tem gente que se permite estar satisfeito. existe mesmo isso de quem sabe dizer “estou cheio”. às vezes eu não acredito, mas é verdade, há satisfeitos por aí. estão por toda parte, aliás. outro dia mesmo eu conheci um satisfeito. beijei a boca dele e não senti nada. vai vendo. quando é você o coração bárbaro, e o outro a te engolir, é necessário desmanchar-se em pedaços, mesmo sem saber quantos serão necessários para preencher o desejo de que tem fome. eu sou uma pessoa triste porque conto demais com a selvageria do outro. uso a cara de pau para dizer que sim, eu espero que o antídoto para minha angústia – seja ela tamanho de criança ou de adulto – seja a vontade que o outro tem de mim. “algo vai me digerir,” que eu fico pensando, “uma hora vai”, que eu falo. na próxima uma cidade, numa próxima paixão, no próximo vôo, eu te escrevo hein, e vamos vendo que eu vou chegando, vamos falando, e vamos marcando. tudo isso num cinismo enorme. porque fico aumentando de tamanho só para testar o quanto que o outro consegue. aí é que vou sucumbindo mesmo, a todo drama anunciado em bilhetes com alfinetes no mural da mente, que prazer! ainda por cima digo que choro muito mais do que derramo lágrimas. tenho problemas com chorar, e há quem diga que isso não combina comigo, mas pode crer, eu sou mesmo bem entalada. tenho aproveitado que estou no rio de janeiro para encontrar com meu terapeuta presencialmente. mudei também a abordagem. depois de anos na análise, agora ando fazendo exercícios de gritos em almofadas. encosto o pé no chão a pedidos – entre mil e uma manias, a de sentar com os pés para cima sempre foi uma coisa “muito eu” – sinto uma estranheza, e peço “me ensina a chorar, Gustavo”. entre outros desafios, parece que preciso aprender a espalhar a raiva por todo o corpo. parece também que, sou mais perversa do que sou melodrama. outra coisa que também não combina tanto com meu eu lírico. grande parte é culpa do sorriso frouxo. vai ver eu tenho um trema no topo da cabeça, sou assim um sorriso ambulante. falo rindo. tenho essa alegria. mas pode crer, sou triste e sou raivosa. dia desses, perdi meus braços e mãos enquanto fazia sons propositalmente animalescos, e senti existir e esquentar, só o meu peito e a minha garganta e o rosto. “sinto muita coisa no rosto, assim, nas bochechas” que eu disse depois do exercício. e com os extremos dormentes, me assustei. faço pouca divisão da histeria. organizo melhor a obsessão. nesse ponto sou clássica. dias depois, anoto em uma folha que estou triste. logo depois conto para a mesma folha que na verdade eu não sei. sinto uma dívida crescer todos os dias. falo dívida porque estou preguiçosa para desenvolver meus auto-temas de cobrança. ontem, ao telefone com Gabriel, amigo tão querido, nos perguntávamos por onde é que andam os nossos iguais. rindo também sobre como não sabemos a hora de parar de falar. a hora de parar destrinchar significados. “e ta tudo bem também, se uma bolinha preta for só isso mesmo, não tem que ter nenhuma poesia” que a gente ensaiava um para o outro. e quem é que nos devora do jeito que devoramos, questionamos pela tela do telefone. e porque é que estamos sempre tão atraídos pela ideia da coragem, mas vamos sempre em queda livre pelos covardes. há dias que eu sonho que estou encarando o pedaço restante do meu coração. ele é pequeno e vermelho, e está estirado numa louça pintada por algum difunto da família Romano. são as louças que meu pai adorava e deixou de herança, mas que até hoje não foram divididas, pois meus irmãos e eu, não sabemos como fazer essa justiça. acordo com uma queimação: vai ver às vezes eu valho a pena, mas também sou restos. fui amada, mas se empanturraram de mim. sou uma delícia, mas também vou para o lixo. tem gente que sabe a hora de parar. e que desgraça eu ser assim tão arrogante!

abalos tímidos

ontem na praia, falei para João que o plano se existisse e fosse meu, era outro, pro que ele respondeu, Sim tem que ter plano, se não, como é que faz para se frustrar? Perfeito. no táxi de volta para o jardim botânico eu esquematizei a frustração. sairia às três da manhã, antes que o sol fizesse gracinha em seu peito e eu deitasse no morno, que contra esse tipo e luz é necessário esperteza. eu seria esperta e me arrumaria em movimentos pequenos. me levaria até a porta com os pés fazendo ponta. ao descer as escadas, sei que o coração vai implorar para voltar, mas me planejei, tudo certo, usaria de um antídoto antigo: pensar que já volto. pensar que já volto é outro nome para um quebra cabeça do que resta das minhas mini explosões. cato esses pedaços porque eu sempre espero que a razão seja estética e clara e nítida. espero, ainda por cima (porque quando o plano é meu tem que ter ousadia) que a estética me responda com olhos de Johannes Vermeer, e que ao me sentir encarada, eu desista finalmente de ouvir tanta coisa visceral e fazer disso reza. se o plano fosse meu, se essa rua fosse minha… é desde que te conheci que vivo ondas de abalos tímidos, pequenas vontades de explosões enormes, e toda hora um mini motivo para uma fuga máxima. cínica, depois que eu pensei tudo que eu tinha para planejar, fico com a vontade de aprender a sentir direito. feito gente e não poeta. é uma merda que pensar é diferente de sentir, infelizmente decidiram isso no design do nosso corpo, ainda por cima sem muito cuidado, nem bula. esse negócio da separação dos dois me dá uma sensação de infinito, mas de um jeito que me irrita, porque eu geralmente gosto do místico. me irrita principalmente porque, para sentir, eu preciso voltar ao seu peito e esperar que a luz bata morninha.