belinha

belinha é uma fiat uno 2006 que minha mãe comprou porque era o que cabia no bolso. no ano passado minha mãe tinha o ferinha que era um hb20 branco que ela vendeu pra comprar a rainha, a van que viraria uma casa ambulante que viajaria o brasil prevendo o futuro de quem na porta, futuramente adesivada de rosa choque, batesse. quando os planos de cigana foram adiados a belinha se tornou a maneira com que minha mãe encontrou de ainda ser feliz: pois odeia andar de qualquer outra coisa a não ser sob quatro rodas nomeadas por ela mesma. nesses últimos meses de brasil andamos pelo rio de janeiro de belinha, que nas palavras dela (de minha mãe e não belinha) (apesar de belinha emitir muitos sons) (indescritíveis) é um carro temático e o tema é brega. belinha é revestida de rosa choque, carrega quatro cachorros de pelúcia em cima do porta luvas, o espelho tem um colar que balança um olho grego e fitas cor de neon da igreja do bonfim e outras miçangas. a sensação brasileira, JBL, faz o rádio que é ligado num fio que não se pode mexer; nem muito menos ousar desconectar das melhores e mais românticas de jorge vercilo; fruto de uma gambiarra do moço que consertou quando a caixa já pedia socorro. fomos eu e girannette tomar café da manhã no parque lage enquanto belinha e minha mãe foram buscar exames. todas as vezes que caminhamos de encontro a elas é uma risada gostosa. no dia que fomos ao terreiro cruzamos a zona oeste e belinha firme e forte ainda nos providenciou um ventinho, que girannette chama de aire condicionado e minha mãe chama de vento power e eu chamo de ventilador pois sou muito mais chata do que as duas. ouço esporro todas as vezes que saímos do carro pois sou a única sentimental que se sente mal em espancar as portas de belinha. minha mãe disse num tom sexual que – é disso que ela gosta. eu ri mas como disse antes, sou chata e detesto toda e qualquer piada sexual oriunda de minha progenitora. aí sempre tem que vir alguém pra re-fechar a porta pra mim. toda vez no elevador estamos falando sobre belinha, que nunca vi reta dentro de uma vaga. como é pequena, minha mãe apenas entra e – se estiver dentro das linhas tá ótimo. girannette morre de rir pois calcula cade detalhe de uma baliza. já eu, quando não faço chorando, faço rezando e agradeço por qualquer resultado depois de muitas idas e vindas. belinha não tem direção hidráulica e minha mãe também não. ambas não são fãs do freio e gostam muito de passeios em alta velocidade. nenhuma das duas grita se você não usar cinto. penso muito sobre os anos noventa quando procuro pelo puta-que-pariu que não tem em todo sinal que infelizmente ficou vermelho antes de passarmos (porém tentamos a sorte absolutamente todas as vezes). belinha é o centro das atenções por onde passa. nunca vi minha mãe triste, nem por um segundo, por não dirigir mais um carro zero. aliás, por toda minha vida vi minha mãe entrar no clima da dificuldade e fazer dela temática, colorida, neon, pelúcia e de som alto. todas as vezes que tento relaxar no banco do carona depois de esquecer inúmeras vezes que não há apoio para o cotovelo e nem a dor dele, fico pensando sobre os muitos contrastes de minha vida e das tantas realidades que bebo. das coisas que aprendi com minha mãe. me divirto, quando me permito, nas nuances e possibilidades que só alguém de alma brasilis viveria. semana passada estava eu pensando nas moscas que vivem em santa cruz e hoje analiso as minhocas da construção em manhattan. de dentro do metrô em nova york, fico pensando no que belinha também viu por aí hoje.

ps: esqueci de contar que gira chama belinha de velinha. primeiro por um erro de português, de quem fala espanhol e troca o som do bê pelo vê. depois por amor à piada que ainda não deixamos de rir.

7 thoughts on “belinha

  1. eu fico imaginando voce nas gringas sentindo falta desse tipo de coisa que é puro suco do brasil. tambem fico imaginando as coisas que nao devem sair dos papos entre voce, sua mae e gira.

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  2. É sempre bom mergulhar em histórias que despertam os sentidos: imaginei os ventinhos no rosto viajando com belinha, o som da risada de vocês, os cheiros misturados e o toque fofin da pelúcia no carro
    A fluidez do seu texto dá vontade na gente de querer ler mais Nalü

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  3. Chorei lendo esse troco de hoje, ando muito emotiva, fiquei pensando nisso que tu disse da tua mãe botar cor e neon nas coisas, as vezes a gente precisa disso sabe pra seguir, já que só temos aquilo vamos fazer com que aquilo seja o melhor

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