pitangas e mirtilos molhados e uvas e outras propostas de sabor napolitano

Nápoles, agosto de 2023

rumo é diferente de destino
rumo é católico
tem a ver com culpa
destino é cigano
tem a ver comigo

eu gosto de pensar que tenho
muitas coisas a fazer
mas não gosto de sentir
que tenho

sentir é um negócio urgente
tento o cinismo mas sempre caio no caos
cedo à quase toda urgência da mente
é assim que acho que sou mais as minhas obsessões do que sou gente

de vez em quando eu acho que é só o TOC que me torna show de bola, veja bem:
acordei em Nápoles dois dias depois que
decidi que acordaria na Itália
por respeito ao místico, vou dizer que esse mesmo material magnético foi o que me levou
para Nova York aos dezoito anos

estou vivendo o livro que me atravessa esse ano
vou andando pelas páginas e ao encontrar fragmentos de Lila e Lenú, penso que talvez eu nunca mais escreva e começo a planejar uma crise

o caos, o pixe, os peixes, o maradona, o horário lúdico e figurativo dos ônibus, a gritaria, o amor bruto, o sal que gruda nos cílios, uma mulher cantando em dialeto e ecoando na praça que eu tropeço e escorrego e assim marco ao sempre – do joelho até a garganta – que sou apaixonada por essa cidade

começo a escrever quando chego em Ischia
dois dias antes do meu aniversário
fotografando em minhas bochechas
o sol cair em leão e italiano

antes de respirar fundo, eu já sabia que essa seria a primeira vez que converso com você
através do tom laranja que faz o brilho na taça desbotada, na folha de tabaco, ao peito nu

coloco meus pés em cima da mureta branca
meu corpo ressuscita em gelo ao lembrar das linhas que li em suas suas mãos, que envolveram meus dedos pintados de rosa de criança menina no seu corpo quente e embriagado das tantas defesas das coisas simples, das frases prontas, da versão grátis de uma plataforma de música, das fugas de um sonho interrompido

ainda não dormi uma noite de sono inteira
depois que mordi seu dedo, que deitei o próprio momento na sua barriga, que te contei com a língua que te dei, sobre os meus achismos, os meus charmes esotéricos e as histórias que ensaio quando quero me sentir desejada

funciona, você cai: eu agora repito e projeto em casas pintadas de branco, a minha respiração no meio da sua boca, meus lábios sob seus olhos teimosos, feito dois mirtilos molhados

essa é a versão sem vergonha e de corpo e cara dura que eu quero que você leia, para que pense muito sobre mim e sobre tudo que eu ainda não te dei
e quero te dar

atenção para a armadilha da minha mente na sua: o céu agora grita em sangiovese
da cor do interior de uma garganta com um whisky, que escorreu antes pelo corpo, que teria sido lambido do jeito que eu sei que você sabe

as veias do seu destino enroscaram no meu cabelo que esticado quase visita o diabo
e agora a noite beija as montanhas e as luzes se acendem, como eu acendo toda vez que seu braço desce lento por minhas coxas na frente de quem quiser ver as maneiras que, dois rostos se afundam em idiomas até virarem um dialeto

ao menor sinal de silêncio, seu coração beija a pele do peito, e a vida inteira passa a existir para contemplar sua respiração Bella, e que Bella!
minhas pernas arrepiam de imaginação
e tremem em ritmo napolitano ao seu ouvido

aperto os olhos como num truque de memória
assim te vejo nas frestas do brilho e do esforço
descubro que tenho perguntas para mim, centenas para você – a noite expande
vêm a primeira de todas: você também vai mandar mensagens em nuvens?

quando finalmente durmo, sonho que escrevo em primeira pessoa sobre uma dor aguda no coração, provocada por uma tentativa de imaginar a cara de um sujeito sem traços

de madrugada essa sombra se fantasiava de erotismo: não sou muito erótica
mas minha cabeça repete os desejos – além de uma música, sempre – como memória
desse jeito parece que eu tenho a sensualidade elaborada

durante o dia entrei numa série de pensamentos em rodas gigantes, sobre a existência num tipo de geografia, sobre possibilidades de ser metade lugar e metade pessoa, um tipo de sereia, eu gostaria que meu corpo fosse uma ilha: será que existe essa lenda?

engolindo minha revolução solar com pílulas vitamínicas e psiquiátricas, tomando as injeções de dentro da minha bolsinha térmica cor de rosa
enquanto boa parte de mim acha que o que cura mesmo a doideira e outros hormônios
é viver a vida em três sabores napolitanos

há um ditado: “chi viene a Napoli piange due volte: quando arriva e quando parte
“quando você vem a Nápoles chora duas vezes, quando chega e quando vai embora”
depois de estar nessa cidade, preciso me convencer de que o tempo é fruto da imaginação, ou…

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to Everyone and Everything I met in Napoli

In Special: Thea, Alyssa, Carol, Maxi, Pia, Renan, Silvio, Maria Paula, Mariana, Carlo, Simone, Alex, Rafael, Benjamin, Urugaio sem nome, Tony, Connor, The Whistle Guy, The Linkin Park Fan, All The Bus Drivers – except for the Meta drivers, The Italian Lady Who Taught Us How To Be Beaten By A Fish, The Lady From Positano On a Scooter, The Napolitana On The Elevator Who Said SHE Was The Gay Bar of Naples, The Blue Coins From Ostello Bello

2 thoughts on “pitangas e mirtilos molhados e uvas e outras propostas de sabor napolitano

  1. É um prazer ter um troço de volta! Palavras que vem e vão na minha cabeça , e como numa espécie de mar, vou e volto e me deixo ir pra longe, querendo me perder mais nessa imensidão de vidas que você coloca.

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