sonhos de uma noite de verão: versão que todo mundo é gay e morre

ontem eu sonhei que você morria e seu amigo era viado junto com meu outro amigo viado e essa foi a parte mais feliz do sonho. todos vocês estavam juntos com outras pessoas que morriam. eu matei uma galera ontem a noite. não de assassina, morriam todos de morte morrida e eu tinha que lidar com a página do facebook de vocês. óazideia. recebia a notícia e ficava alternando cenários entre desertos e oceanos cor de rosa, querendo acalmar uma dor que vinha do peito até a ponta do dedo mindinho. dor essa que no final foi real, eu achei que o infarto é que tava me acordando. meu quarto é virado para o lado mais quente do brooklyn, e a minha casinha de madeira, tão bonitinha, é um inferno de junho a setembro. há mais de três anos moro nesse apartamento e ainda não comprei um ar condicionado para o quarto, porque todo ano eu digo que “esse verão eu não vou passar aqui mesmo”. restam sempre algumas semanas de junho e de setembro, que mesmo com dois ventiladores ligados, minha cabeça reveza duas soluções: ou eu me reviro do avesso ou vou arrancar a pele. dramas e dilemas, a nova novela das sete. nova york não sabe fazer calor. não aprendeu. no rio a gente faz bonitinho: existe uma organização da parceria entre o vento e a sombra, uma coreografia praiana, a possibilidade de um chinelo, umas montanhas cenográficas e quase nenhum prédio em formato de piroca de espelho que reflete a porra da luz na calçada e queima a sola do tênis. no mais: faz sentido o calor embaixo do suvaco do cristo mas não tem charme o suvaco da estátua da liberdade. mesmo assim, é a melhor estação do ano. o verão no brooklyn é quando eu mais amo o brooklyn. não vou explicar por preguiça poética, que não faz muito a proposta desse rumo, mas justifico a falta de vontade: eu desejo a todo mundo que eu amo e na mesma medida a todo mundo que eu odeio, que venham um dia a nova york no verão antes de morrer. ou antes deu matá-los em sonho, que aparentemente virou possibilidade, já que matei geral ontem a noite. comecei a ter sonhos dadaístas e católicos desde que fui embora de Napoli. tenho escrito sobre eles mais do que sobre a realidade, mas aí são perigos outros, negócio de publicar. vamvê. eu tinha planejado compartilhar uma prosa para essa terça, mas li que meu horóscopo disse que, hoje eu sou uma metralhadora de pensamentos aleatórios. resolvi dar essa chance para minhas notificações. amigos literários (imaginários ou não) vão dizer que esse texto é uma porcaria, que não dá para entender com quem eu estou falando, que eu perdi o fio de meada e preciso decidir se sou poeta ou faladora de redes sociais. nesse momento estou me propondo a um outro-certo-tipo de nudez, e respondo: estou falando com você. ai, que ódio carinhoso que eu tenho de você. agora mais ainda depois que vi o jeito que você morreu. queria contratar um promoter para ficar na porta de entrada do portal dos meus sonhos. uma canetinha bic vermelha, só dando check nos nomes da lista. se não tem nome, vaza, parceiro. ontem, antes de dormir e sonhar como um adolescente médio do texas, mandei um e-mail para uma amiga norueguesa. temos um combinado de mandar atualizações da vida uma vez por mês. bicho, foram três parágrafos sobre essa porra toda. mas não do jeito que você tá pensando: eu desvendei tudo. o jogo inteirinho. teve uma hora que eu escrevi que eu alimentei o seu ego e você não alimentou o meu. absurdo. na hora eu achei chique, relendo eu achei que parece uma página perdida do meu diário de adolescente. pior que eu estou mesmo revivendo essas questões imaturas. estou quase indo para o ensino médio aqui do lado de casa, para conversar sobre esses afagos específicos. seria assim: eu tiraria da bolsa um batom em formato de morango e choraria com gosto de corante de sombra azul, sobre o menino da 3C que falou que não gosta de mim. logo depois eu escreveria uma cartinha para outro, já que jamais eu perdi o entretenimento do flerte. mais cedo eu conversei com outra amiga ao telefone, que me falou, “para de ser furacão, seja mais furaquinho”. logo depois que desliguei o telefone, vi que minha chefe publicou uma coisa, que traduzido dizia mais ou menos assim: “esteja ridiculamente apaixonada pela vida, até que as pessoas te achem um pouco maluca”. porra, como eu detesto essas frases, mas essa conversou com a minha adolescente desbloqueada. no fundo da cabeça ficou uma voz “olha a gente aí”. vinte e seis anos, outro dia convidada para palestrar em faculdade, escrevendo um diário digital sem o menor compromisso com a carreira que eu quero ter. eu não me aguento. no meio dessa escrita, fui pegar um copo d’água, e na vinda pensei assim: como eu nunca tive animal de estimação, e nunca abri mão da vida urbana, não me restou outra coisa a não ser me apaixonar por gentes muitas, gentes várias. tentativa número um de reflexão pré poema. minha única pulsão de vida, além das narrativas dos meus sonhos, estão nas histórias que eu ouço, das pessoas que eu conheço. tentativa número dois de voltar para análise semanal. a calmaria me machuca muito mais que o grito, talvez por isso eu esteja, de novo, pela milésima vez, entendendo tudo só depois. com sorte, um dia eu chego no sentido antes dos meus poemas. quando eu escrevo sobre o que eu sei, fica assim, feio, sem jeito, a gramática chega-chora. eu não gosto não. enquanto isso, lá nos outros estilos, se estou escrevendo de você é para entender de mim. não sei se foi você que escreveu, mas foi você que me mandou, então vou te dar essa moral: quando você me enviou “longe é onde você não quer ir” eu li do meu jeito o que eu precisava ler. não é sua carcaça, é a chama. são as coisas que eu entendi depois que você apareceu. o resto talvez seja da emoção entre os parêntesis do ego, ou dos outros jeitos de falar sobre desejos e lágrimas doces. nada disso importa mais do que a fantasia e do que me fez voltar a escrever. um dia serei furaquinho, por enquanto, vou sonhando com mais viados no mundo e vejo se faço um esforço para não te matar de novo.

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