notas

fiz uma lista das vezes aleatórias que pensei em você nas últimas semanas, sem nenhuma pretensão poética, foi pura tentativa de escrever para nunca ser lida, ou vai ver eu queria mapear meus pensamentos do jeito mais cínico possível, já que faço pouco caso desse tipo anotação, aliás, outra coisa que detesto é escrever sobre escrever: nem terminei esse troço e já é o meu preferido para apagar logo em seguida

ultimamente meu flerte profissional tem sido com as histórias surreais, tipo meus sonhos com peixes presidenciais em aquários que não vazam quando eu corro, ou então um outro extremo: decido escrever porque quero burlar o fantástico e chamar de geometria da sensibilidade, uma lista de compras ou de afazeres ou das minhas próximas manias favoritas

segue algumas linhas que anotei em formato de lista no bloco de notas, título: when i thought of you
no portão de desembarque B do aeroporto JFK, em frente a porta de casa, sentada no sofá encarando estante de livros, quando acordei com a cara enfiada nas costas de outra pessoa, no corredor do quinto andar do hotel mandarin oriental, quando esbarrei num político durante um coquetel e quem pediu desculpas foi ele, quando finalmente desfiz a mala, quando achei que senti seu perfume no metrô L, no banho a espuma fez a letra do seu nome na minha coxa, abrindo a geladeira às 3:42 da manhã, enfiando a mão no buraco negro da bolsa marrom procurando um bilhete escrito num guardanapo, quando decidi pendurar uma tela em branco que achei perdida embaixo da cama


também em notas, registrei as frases que li e ouvi, na premissa de que depois desenvolveria uma prosa mais pomposa, daquelas que os personagens da vida real enchem os olhos para escrever depois que publico, “anna luiza, aquela parte foi para mim?” e para o que eu respondo “é quase sempre sobre mim, de um gostinho todo seu” mas dessa vez eu quis deixar a atenção maior para os pequenos shots da vontade, sem incitar a embriaguez nos derrames do exagero das palavras, que eu tendo pensar ser minha única serventia, e por isso, em revolta, eu me forço a ter a fé de que talvez os meus desejos possam ser de um jeitinho breve e mobile e menos gregoriano

em uma outra pasta para o futuro, intitulada “ouvi em novembro 2023”, anotei assim: fala tú leonina, vinte minutos cariocas de putaria narrada em sussurros no banco de trás de um táxi preto, vamos fazer um dia de home office e macarrão com tomate e cogumelos, tire o “on a saturday” do nome da sua playlist porque eu escuto todos os dias, esse rolé é hippie demais para uma terça feira, quanto custa uma pomada vaginal, você está vivendo uma adolescência tardia, te proíbo de usar drogas com esse boy, so your brunch is with a friend, do you only smoke slim cigars, eu dirijo e te levo, sua luz é de parar qualquer lugar que você entra, riso frouxo, princesinha, puta, madam baby, por que que nunca bebe o último gole, estou apaixonado por você

são coisas que eu queria dizer e que talvez num futuro fora das notas eu fale mesmo, mas que jamais admitiria na cara dura: saudade, por favor vamos combinar de você se apaixonar por mim mesmo que eu não me apaixone por você, seu carinho é pouco: conte mais minutos em sua cabeça, quero saber um segredo feio e dois bonitos, dê um jeito de me dar um amuleto, troque a lâmpada do meu banheiro, leia meu livro e diga que odiou, em seguida me beije para que eu conserte a prosa, baby: o verão é um estado mental, arranhe sua história comigo: vamos virar um disco com lado A e B, descubra o meu álbum favorito quando eu disser: vinte e oito de dezembro de dois mil e sete, adivinhe o jeito que eu preciso da sua boca, goddamn i feel ready for you

2 thoughts on “notas

  1. “adivinhe o jeito que eu preciso da sua boca, goddamn i feel ready for you” SANTA NALÜ!!!!!! esse troço ficou incrível 🙂

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