talvez eu esteja muito enfeitiçada com a ironia, ainda que furando murais com alfinetes meta modernos
ando pensando sobre o tamanho e a luminosidade do meu mais novo método de alívio da agonia: um homem que faz qualquer copo ser americano e qualquer caracol do meu cabelo, uma linha em curvas desconhecidas
eis que num abraço, o caminho do zíper da jaqueta de couro, apertou contra minha bochecha e eu chorei
mas devota da mandinga e do improviso que sou, justifiquei os olhos turvos com “arranhei sem querer”
tem vezes que a vida rebobina do nada e o botão que faz é abstrato, fino, vive sumindo e aparecendo
como pintas no lábio inferior ou marcas de couro na pele, calos nos dedos de corda de aço ou cheiro de cigarro vermelho, e aí finalmente a bochecha no zíper:
de repente diminuo o jeito e vejo os braços do mundo como tentáculos, a voz faz que fica só para uma despedida, e as coxas sempre fazem um desenho em braille, eu acho graça, parece que o corpo faz esse tipo de arrepio como se para garantir um caminho ao trauma, ainda que falhe a visão, já que tão arranhada pelo imaginário-poder de resolver qualquer-alguma-coisa (ou os meus sonhos de menina)
minha qualidade do amor é crítica e dura: aí me delicio de paixões para justificar tantos caprichos da quimera
o meu vício por novidades propositais é porque amo perto demais da minuciosidade de um desejo narcísico
e para me divertir, cuido das chamas como se fossem de outro elemento, tipo bolinhas que crescem em água
me permito adolescências, deito no tapete da sala por uma hora e trinta e seis minutos de uma manhã morna
curtindo o meu paixonite favorito, que é doce e leve e mais da minha prosa safada do que dele em matéria
alienígena para minha vênus em virgem, escorrego no suor de um corpo esculpido de todas as minhas fugas
quase vejo pinturas rupestres disfarçadas em nanquim
mas antes de um pulo arqueológico, já estou entregue ao que há de bruto e de belo na coreografia de opostos, é bom! quero acreditar que me encaixo no momento sem a ganância de descobrir maiores picos do intelecto
não fecho os olhos: encontro outro par, sou exigente
quero é continuar pilotando a nave de marte em escorpião, que a vênus passa por um outono longo
e para lá fica a terra, que de ebulição basta minha orelha
sinto falta de correr e queria estar correndo agora, mais como teletransporte e menos como rotina e preparo, mais porque gosto quando estou na mesma velocidade dos pensamentos e menos da panturrilha em glitter
eu não entendo nada de biologia (a não ser das coisas que um dia viraram obsessão, jamais me pergunte como eu sei tanto sobre o processo de plantação de mirtilos ou sobre abelhas ou sobre efemerópteros) e quando escuto “endorfina”, sempre penso numa piada muito ruim sobre estar em dores grossas, e também que se eu pudesse, de fato, ter acesso a dores mais finas, eu com certeza existiria no modo noturno, silencioso, e calaria sem dó as notificações neuróticas mais cafonas
ainda sobre abstratos botões de rebobinar, foi meu tato num papel toalha que trouxe de volta “a luz baixa do restaurante que me agrada sempre”, eu respondo quando você diz que “depende”, completo que prefiro ambientes amarelos e quentinhos, e você prefere caber na cadeira do que no sofá, ao fundo ouvimos uma voz cantar que o mar serenou quando ela pisou, e eu me preparo para prestar atenção nas palavras que movem as suas mãos; como seus gestos vão pincelar nossas conversas; onde ficam seus cotovelos e o tamanho da vela perto do seu antebraço, a conversa flui sobre o que há de encontro no rio de janeiro, o mistério das Annas e a possibilidade de organizá-las nos versos de uma música longa, ao fundo agora está seu jorge cantando bowie, resolvo abrir o guardanapo e é desenhando linhas com o dedo, que por fim te ensino um segredo, o exercício dos quatro quadrados numa folha
é um domingo que chove muito e eu escolho sair com dois casacos e nenhum guarda chuva, não consigo decidir se quero comprar flores ou pizza ou vinho ou cigarro ou todos, tiro e coloco o celular do bolso e toda vez que caem gotas na tela, nunca vão ao mesmo lugar, me desespero por não conseguir achar uma música que cale a minha cabeça, piso em três poças até chegar na estante de vinhos italianos que encaro por quinze minutos; como se fossem virar portugueses com o poder da minha mente; pronto, outro botão; lembro que quero responder uma mensagem, que quero dizer “me explique sempre tudo com as mãos”, sinto um nó de vontades esquentar o meu pescoço, então decido tirar um dos casacos, mas imediatamente lembro que odeio segurar coisas, por isso me cubro com o couro de novo, pergunto do montepulciano, para o homem que há minutos ouviu de mim, encharcada: “i’m okay”
com os olhos arranhados ou furados de alfinetes meta modernos, faço um tapete morno do presente, sorrio como quem tem espaço sobrando no corpo, rebobino zíperes e bochechas, volto à críticas e cores quentes, acredito no acaso como amigo das minhas paranóias, fico para o café da manhã, sou casual mas impessoal nunca, noto que em dores grossas estão as fibras que apertam minha coluna, mas me deixo ficar molinha, bem molinha, quando me esquento nas chamas deliciosas que eu invento serem de água, ainda por cima eu cuido, provoco, deslizo e lambo: é o meu jeitinho
te leio e sempre me pego visitando lugares que moram tão dentro de mim que nem sei se conheço, mas você me leva pra eles. lindo, mais uma vez.
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