beijinhos


me proponho para meditação, como se eu fosse um pedaço de bicho menor oferecido a um bicho maior. melhor, me sinto esticada numa grelha, enfeitada de sal grosso, mas o fogo não me bate jamais. há anos estou exposta dentro da ideia, como quem faz um biquinho antes de um beijo terno, e pode até ser que a ideia tenha virado ferida, de tanto que já foi cutucada. basta eu entrar num consultório médico para ouvir que a yoga seria o meu remédio. a coluna e mente numa tacada só, olha que maravilha, Anna Luiza! em entrevistas, escuto artistas esbanjarem os benefícios das práticas do silêncio e a contemplação. sinto ainda mais falta de Fernanda Young em momentos como esse. mais do que falta, eu sinto que perdi uma amiga essencial, e passei a odiar um tico mais da vida quando ela se foi, levando embora nossas conversas sobre surtos e yoga. não é que estou atrás de uma grande descoberta espiritual em específico, é que dia desses, me interromperam um beijo para perguntar se eu meditava. assim, do nada, a criatura me indagou: “você medita?” e depois da minha resposta negativa, essa mesma boca levantou um cenário que me apavorou: “então sua mente é, há 26 anos, como um dia quente na bahia sem um chuveiro refrescante.” eu respondi rebelde que “meu refresco é a música” e ainda reativa, completei que tenho meus modos. mas confesso, eu cismei com essa porra de chuveiro. não é nem que eu nunca tenha meditado, eu faço muita dramatização do meu caos. quem me lê ou me ouve, ou quem me lê e me ouve, talvez acredite mais do que eu no meu próprio barulho. estou mais madura e mais em paz com minha própria companhia, mas nada que tenha secado minhas questões presas no varal da mente, num cantinho onde o sol bate torto e por poucas horas. de todo jeito, preciso ser justa: acho que já fiz essa história de meditar. várias vezes, inclusive. só não sei dizer ao certo se era aquilo mesmo, o que talvez não interesse. meu primeiro contato com esse mundo começou cedo, logo nos meus primeiros anos de vida. vovó é uma devota ferrenha da meditação e práticas orientais. ela repete com paciência que o que importa é a intenção, “toda vez que você senta com a intenção de meditar, o que acontece depois, é meditação”. e assim é que eu acho que já meditei em todas as minhas dores e ansiedades e obsessões e paixões e revoltas e ideias e quadros e livros e filmes e músicas e angústias e vergonhas e doenças e paranóias e lugares e comidas e móveis e vozes e família e bichos e roupas e cabelos e peles e os jonas brothers. seria essa uma vitória para meu lixo ocidental particular? tenho memórias vivas dos domingos em que eu corria pelos jardins do centro de meditação que vovó me levava, numa esquina quieta do humaitá. ao fundo era sempre o som de adultos cantando em sânscrito, abafando a brincadeira de um grupo de crianças que eu me juntava com naturalidade. éramos a trupe que não conseguia ficar quieta na sala de meditação – uns da turma tinham uma bolinha vermelha no meio da testa, e quando eu deixava, minha vó pintava em mim também. era uma casa enorme e linda, cheia de cômodos enfeitados com as flores das cores mais vibrantes. os ambientes tinham o pé direito enorme. na maioria dos quartos era proibido barulho, e sempre uma moça com um crachá de “em silêncio” fazia a guarda da porta. dentro desses lugares, paredes eram estampadas de monges com semblante sereno. oferendas ficavam embaixo de porta retratos longos. eu enfiava sempre um pedido anotado em uma cartinha dobrada, dentro de uma caixa branca com um pequeno rasgo para envelopes de dinheiro, que ficava no meio das oferendas. meu desejo era sempre o mesmo e escrito à lápis: oi monge, eu quero ser uma grande atriz. a comida era servida no final das atividades, e era um pesadelo para um paladar infantil. tudo era mascavo, marrom, verde, cheio de pedacinhos da facção do cravo, azeitonas, amarelados, e outros afins fortes e minúsculos. o bolo de chocolate quando não era integral, era delicioso. nessa hora de comida e despedida, era quando minha vó me re-apresentava para os amigos. lembro de me impressionar com a calma e os gestos lentos de todos os adultos. falavam baixo, e num português que parecia um pouco distante do meu. a memória de uma mulher de cabelo grisalho, longo, liso e tão, tão brilhante, me faz pensar até hoje que eu só vou aceitar a velhice numa boa, se meu cabelo for daquele jeito. quando eu já não tinha mais idade para as brincadeiras no jardim, ficou claro que eu teria que me juntar ao grupo dos jovens músicos ou aprender a ficar quieta na sala de meditação. como eu sempre gostei da parte do canto, me forcei a frequentar mais um pouco, mas continuava a sair do local no momento em que começava o silêncio. numa dessas saídas para caminhar no jardim – eu tinha provavelmente menos do que onze anos, acabei assistindo uma cena que até então eu só tinha visto em novela. dois pré adolescentes aos beijos, sentados na parte seca e redonda da estrutura da fonte de mármore. os dois pareciam personagens de malhação, ai como eu queria fazer malhação! dei alguns passos para trás, com medo de ser vista, e com a testa grudada em uma árvore, analisei a pequena paixão. o barulho de adultos se aproximando fez o casal se afastar de pressa, e no mesmo ritmo eu corri rumo às escadas, para pedir ao monge que meu primeiro beijo fosse naquela fonte. fico pensando na pessoa responsável por coletar as doações da caixa, se deparando com os meus bilhetes à lápis. acho graça. estou em moreré, uma pequena ilha da bahia, salgando meus pés antes de verificar meus e-mails e ensaiando diálogos para esse ano que entrou. hoje de manhã, sentei no meio do que seria o mar se a maré não estivesse seca. estendi uma canga preta na areia ainda sentida de água, e me propus ao presente. senti minha bunda grudar no tecido e tentei ajeitar meu pescoço com o horizonte. em voz alta, contei a mim mesma que não estávamos enxergando nenhum prédio. que loucura, hein, Anna Luiza, nenhum sinal de prédio. a não ser eu mesma: é que muitas vezes eu me enxergo como um prédio, mas isso é uma loucura outra, para outro momento de confissão. vai, Anna Luiza, coloca o despertador já que te preocupa o horário. pronto, às nove e quarenta e cinco eu me levanto daqui e começo o dia. sinta quais músculos estão duros, Anna Luiza. que pena que são quase todos! agora vamos procurar pelo chuveiro. não fecho os olhos pois nessa ilha parece pecado. me distraio da busca pelo chuveiro e reparo nas bolinhas cintilantes que o sol desenha no topo do mar. acho tão bonito quando essa estrela, que é tão forte, faz tamanha delicadeza. tenho muita fé nas coisas brutas que também são gentis. fiquei imaginando esses brilhos como selinhos do sol no azul turquesa. noto que existe uma porção de beijos entre minhas histórias com a meditação, e aí decido mais ou menos sobre o que é o troço dessa terça-feira.

poesia é o caralho: tudo que eu quero dizer um pagode já cantou

Queria anotar a minha vida assim. Organizada como deve ser. Desvendar uma narrativa numa gramática de sucesso. mas não adianta: eu continuo preferindo tudo em caixa baixa. preferindo saber compor um forró. trocaria a agonia da poesia por saber tocar acordeon. estou convicta de que tudo que eu queria dizer, um pagodeiro já disse. de um jeito leve e explicado, de um jeito olha o mate, o biscoito globo, sanduíche natural. eu endereço meus pensamentos de um jeito vesgo, como quando se olha para o meio da ponta do nariz. pelo menos é assim que eu acho. crianças ouvem que não se pode forçar a vista desse jeito, pois vai que passa um vento e congela para sempre? eu levei a sério a vida toda. tomo cuidado com os meus olhos expostos ao vento, ou por superstição ou por infantilidade, ou vai ver eu gosto é de acreditar nas coisas que os outros falam. não sei. quando o vento do norte da paraíba bateu tão forte na minha cara que eu tive que fazer dos meus olhos dois travessões, resolvi aproveitar o passeio de buggy meditando-entre-aspas. mas não deu tão certo, mais ou menos trinta pensamentos depois, eu desisti. pouco se fala como meditação parece muito com uma pré crise de pânico. por isso, não sou eu quem vai falar. estou a espera de um melhor cronista que desenvolva o tema. mas já que eu abri esse parêntesis, queria contar que eu acredito muito em crônicas e muitas vezes me pergunto se, por causa das redes sociais, mais especificamente o twitter – ou X, as pessoas perderam a esperança em quem conta histórias do cotidiano. eu tenho várias amarguras, essa não é uma delas. não só eu adoro ouvir e ler um causo qualquer, como procuro por todo menor sinal de mágica em qualquer uma dessas oportunidades. o que é fofo, mas também um problema. fico achando que nada pode ser só realidade, tudo tem que ter um toque fantástico. no dia vinte e oito de dezembro às nove da manhã, eu estava numa ligação com Mariana, que é vidente. claro. gosto de um spoiler do mistério, ou de qualquer jeito de chegar perto da minha bússola particular, ou de planejar ficar surpresa, ou tudo isso junto e mais uma coisa ou outra ou várias. eu não entendo como funciona o GPS e nunca me arrisquei a começar a ler sobre o funcionamento de satélites, mas o oculto é, para mim, igualzinho aos dois. pulei sete ondas no dia do réveillon, uma foi dedicada ao desejo de conhecer quem me lê. depois da meia noite, uma leitora me achou no meio da multidão e disse que leu meu livro e pediu uma foto e me abraçou. se isso fosse um tweet, seria acusado de mentira. se fosse crônica, era conto fantástico. para mim é o GPS, etc. dúvida mesmo, é a gramática de sucesso. Ou se devo anotar a vida assim. E questões outras que eu desenvolveria se não estivesse prestes a sair de casa para ir ao forró. vai que tudo muda! e eu aprendo acordeon!

para-raio

o mar de joão pessoa está marrom
piso na areia no ritmo das minhas justificativas
é o vento, é a maresia, é o tempo, vai passar
pisando em algas e torcendo para não ser peixe
peço que se desfaça a imagem de um corpo
azul dourado, que interrompe meus costumes
e minhas conclusões

no olho da minha mente eu não vejo
um ponto que também não seja uma vírgula
um traço que também não seja corrente elétrica
um travessão que não pareça um travesseiro
a agonia está entre parêntesis
sendo os parêntesis meus ouvidos
e entre meus dentes há uma conversa
sobre a falta do seu braço
micro-negócios da minha língua
aprenderam a dizer seu nome

boiando ao mar, entrei numa competição com o sol
enquanto minha pele torrava
eu bronzeava memórias
lembrei do dia que você disse “jogue vinte centavos
para Iemanjá e peça vinte e cinco milhões”
e completou “líquido”
eu fiz que tinha defeito nesse pedido
e fiz pouco caso
apertei 47 na máquina de bebidas e o destino ficou
por uma garrafa de água de plástico molenga

me esforcei para lembrar por onde andou aquele quarter, e parece que ao final foi você quem jogou a moeda para o cimento
não foi?
mirando o letreiro
que escancarava em vermelho neon
os nossos sonhos de crianças
que procuram amor na multidão
como se não fosse cair no jardim
embaixo da janela onde estavam
as nossas primeiras fãs internacionais

se eu tivesse vinte e cinco centavos agora
eu jogaria ao raro mar revolto do nordeste
e pediria que ele ficasse no manso azul turquesa
que eu gosto, pediria para enxergar essa cor
do jeito que ela pertence ao mundo, e se possível
algumas respostas menos poéticas do que as perguntas
quem é que deixou Caetano te escrever assim
desse jeito, ligando os breus?
quem é que deixou a patente aberta?

se eu te questionasse isso ou qualquer coisa
você responderia com um trovão e só
porque é assim que vai ser, combinamos
uma tempestade que dura janeiro inteiro
quiçá a eternidade, mas isso ainda não desenhamos

eu vou dizer oi e você vai dizer raio
eu vou dizer uma besteira
e você vai dizer um relâmpago
recado para se eu sumir:
por favor, destrua tudo comigo
cada um de um lado do para-raio
vamos acabar com a porra toda
é com o mesmo potencial de início
que eu quero o fim

uma hora eu acho que somos dois pentelhos apaixonados por preparar a paixão dos outros marinadas com temperos ardidos
enfiados dentro de um saquinho zip lock
para mais dar gosto
outra hora eu acho que somos dois leões famintos da mesma vontade
com uma só receita dentro de um vaso de cristal, que nada combina com as nossas patas
castanhas, ariscas, brutas, suadas e selvagens
não consigo decidir se nosso material é de pensamento, estrela ou bicho

vamos ver quem é que bronzeia mais
esse amor salafrário
tá ardendo?
vamos ver quem é que cuida
com gentileza do que não presta
que eu quero ver quem atira mais longe
a próxima moeda do destino

e se tiver bravura chore seu corpo em mim
deixe suas gotas cairem
por enquanto que ainda estou
com a boca aberta de sede
because people say stuff they don’t mean
all the time

algoritmo sequencial de caranguejos

em algum lugar ao oriente do mundo, numa feira barulhenta e de qualidade visual verde, um caranguejo ainda vivo rasga o plástico da bandeja que o prende e expõe. ao seu lado estão outros amigos, que logo tomam coragem para o mesmo ato. agora são três numa coreografia lenta: não há pressa para liberdade quando ela está sob a vigia da fome dos outros. a dança parece pensada para não ser revelada aos olhos humanos. movimentos inteligentes e precisos. fora isso, fingem de mortos, ou de comida. isso tudo num vídeo vertical do facebook, um dia desses. imagens que eu assisti até o final, sem lembrar que alguém teve que filmar, para que eu pudesse, às três da manhã embaixo de uma coberta, estar boquiaberta de ansiedade, torcendo para caranguejos como torço para o flamengo: porque não há outra opção correta. isso impede o rumo de um querido próximo longa dos estúdios pixar, uma vez que nunca o autor do vídeo permitiria a vitória dos crustáceos. o próximo vídeo é um nariz cheio de cravos. bloqueio a tela do celular e deixo os caranguejos e os cravos em cima da mesinha ao lado da cama. sinto meu corpo moído, mas é uma dor safada, que está junto de cenas que mostram o mapa dos meus músculos contraídos. abro um sorriso, acho graça de como minha mente quando descansada logo impede a histeria de desenvolver um pânico. justamente porque sabe que a resposta está em um filme vívido. acho que não vou conseguir dormir. vou para o quarto mental que eu construo desde criança, não lembro bem como começou essa viagem, mas desde que entendi que tenho imaginação, passei a visitar esse espaço visual. quando chego, há uma carta aonde está a ideia de uma gaivota dentro de um estúdio de música, de imediato fico feliz que jamais ela estaria coberta por um plástico. no mesmo espaço da gaivota, existem mais cartas, que embaçam naturalmente com o vapor de intensidades outras, como se escritas à dedo, num vidro. como nunca quis esgotar meus personagens e endereços de prosa, abro uma gaveta da minha cômoda de histórias, e decido abrir só quando eu for viver de novo. quero que os últimos traços sejam o início dos próximos. como falo mesmo tudo que sinto, não me aperta o coração, por isso até penso em falar sobre a importância de declarar afetos, mas desisto porque acho cafona. volto ao que fazia e fecho a gaveta. sento no chão da mente. olho para o meu mural de amores, pactos, desejos, medos, mistérios, meus próximos livros, minhas próximas obsessões esperando serem escolhidas, fórmulas mágicas, receitas em desenhos e de repente, antes que eu pudesse enxergar o próximo tema: um caranguejo solto! eu sou mesmo assim tão impressionada com bichos, por isso saio correndo pelos corredores da cabeça até voltar ao meu corpo moído. ufa, prefiro ficar com a memória de uma foda, que jamais estaria no mural, uma vez que fiz um compromisso mais sério com a casualidade e estou tentando largar o vício de tragar uma pessoa e soltar outra (ou seja, estou tentando parar de transformar todo mundo que eu desejo em história, pelo menos até o fim do ano, pois preciso terminar meu próximo livro). mas bastam dois segundos de um “jamais” para eu duvidar de mim. “olá!” eu escuto a dúvida dizer baixinho no canto da minha nuca. será mesmo que isso não está no mural? não fosse o caranguejo me espantar para fora, eu saberia. e é aí que… bingo! eu entendo tudo. puta que pariu. o processo desenrola rápido, não existem charadas, a narrativa está pronta. não há saídas. parece mesmo que eu te envolvi num plástico protetor das minhas ideias, e que estou esperando para ver como você fura e como você dança. quero que você veja como que eu te deixo livre mesmo te filmando, que eu faço que nem vejo que você foge, e é desse jeito que você chega ao meu mural. sacanagem. da próxima vez que eu for lá, ou eu entro com uma bandeja para te colocar de volta, ou vou ter que aprender a observar sua natureza sem medo. ao final, não importa. eu já perdi: aqui estou, te fazendo de tema.

estava aqui pensando com os meus botões

talvez eu esteja muito enfeitiçada com a ironia, ainda que furando murais com alfinetes meta modernos
ando pensando sobre o tamanho e a luminosidade do meu mais novo método de alívio da agonia: um homem que faz qualquer copo ser americano e qualquer caracol do meu cabelo, uma linha em curvas desconhecidas
eis que num abraço, o caminho do zíper da jaqueta de couro, apertou contra minha bochecha e eu chorei
mas devota da mandinga e do improviso que sou, justifiquei os olhos turvos com “arranhei sem querer”

tem vezes que a vida rebobina do nada e o botão que faz é abstrato, fino, vive sumindo e aparecendo
como pintas no lábio inferior ou marcas de couro na pele, calos nos dedos de corda de aço ou cheiro de cigarro vermelho, e aí finalmente a bochecha no zíper:
de repente diminuo o jeito e vejo os braços do mundo como tentáculos, a voz faz que fica só para uma despedida, e as coxas sempre fazem um desenho em braille, eu acho graça, parece que o corpo faz esse tipo de arrepio como se para garantir um caminho ao trauma, ainda que falhe a visão, já que tão arranhada pelo imaginário-poder de resolver qualquer-alguma-coisa (ou os meus sonhos de menina)

minha qualidade do amor é crítica e dura: aí me delicio de paixões para justificar tantos caprichos da quimera
o meu vício por novidades propositais é porque amo perto demais da minuciosidade de um desejo narcísico
e para me divertir, cuido das chamas como se fossem de outro elemento, tipo bolinhas que crescem em água
me permito adolescências, deito no tapete da sala por uma hora e trinta e seis minutos de uma manhã morna
curtindo o meu paixonite favorito, que é doce e leve e mais da minha prosa safada do que dele em matéria

alienígena para minha vênus em virgem, escorrego no suor de um corpo esculpido de todas as minhas fugas
quase vejo pinturas rupestres disfarçadas em nanquim
mas antes de um pulo arqueológico, já estou entregue ao que há de bruto e de belo na coreografia de opostos, é bom! quero acreditar que me encaixo no momento sem a ganância de descobrir maiores picos do intelecto
não fecho os olhos: encontro outro par, sou exigente
quero é continuar pilotando a nave de marte em escorpião, que a vênus passa por um outono longo
e para lá fica a terra, que de ebulição basta minha orelha

sinto falta de correr e queria estar correndo agora, mais como teletransporte e menos como rotina e preparo, mais porque gosto quando estou na mesma velocidade dos pensamentos e menos da panturrilha em glitter
eu não entendo nada de biologia (a não ser das coisas que um dia viraram obsessão, jamais me pergunte como eu sei tanto sobre o processo de plantação de mirtilos ou sobre abelhas ou sobre efemerópteros) e quando escuto “endorfina”, sempre penso numa piada muito ruim sobre estar em dores grossas, e também que se eu pudesse, de fato, ter acesso a dores mais finas, eu com certeza existiria no modo noturno, silencioso, e calaria sem dó as notificações neuróticas mais cafonas

ainda sobre abstratos botões de rebobinar, foi meu tato num papel toalha que trouxe de volta “a luz baixa do restaurante que me agrada sempre”, eu respondo quando você diz que “depende”, completo que prefiro ambientes amarelos e quentinhos, e você prefere caber na cadeira do que no sofá, ao fundo ouvimos uma voz cantar que o mar serenou quando ela pisou, e eu me preparo para prestar atenção nas palavras que movem as suas mãos; como seus gestos vão pincelar nossas conversas; onde ficam seus cotovelos e o tamanho da vela perto do seu antebraço, a conversa flui sobre o que há de encontro no rio de janeiro, o mistério das Annas e a possibilidade de organizá-las nos versos de uma música longa, ao fundo agora está seu jorge cantando bowie, resolvo abrir o guardanapo e é desenhando linhas com o dedo, que por fim te ensino um segredo, o exercício dos quatro quadrados numa folha

é um domingo que chove muito e eu escolho sair com dois casacos e nenhum guarda chuva, não consigo decidir se quero comprar flores ou pizza ou vinho ou cigarro ou todos, tiro e coloco o celular do bolso e toda vez que caem gotas na tela, nunca vão ao mesmo lugar, me desespero por não conseguir achar uma música que cale a minha cabeça, piso em três poças até chegar na estante de vinhos italianos que encaro por quinze minutos; como se fossem virar portugueses com o poder da minha mente; pronto, outro botão; lembro que quero responder uma mensagem, que quero dizer “me explique sempre tudo com as mãos”, sinto um nó de vontades esquentar o meu pescoço, então decido tirar um dos casacos, mas imediatamente lembro que odeio segurar coisas, por isso me cubro com o couro de novo, pergunto do montepulciano, para o homem que há minutos ouviu de mim, encharcada: “i’m okay”

com os olhos arranhados ou furados de alfinetes meta modernos, faço um tapete morno do presente, sorrio como quem tem espaço sobrando no corpo, rebobino zíperes e bochechas, volto à críticas e cores quentes, acredito no acaso como amigo das minhas paranóias, fico para o café da manhã, sou casual mas impessoal nunca, noto que em dores grossas estão as fibras que apertam minha coluna, mas me deixo ficar molinha, bem molinha, quando me esquento nas chamas deliciosas que eu invento serem de água, ainda por cima eu cuido, provoco, deslizo e lambo: é o meu jeitinho