decido numa quinta-feira de manhã
que a noite entro num avião rumo à madrid
e é a segunda vez que essa cidade magnética
me transforma em material metálico e encaixa
bonitinho, a minha dança no topo do precipício
da razão e do medo, e o lance em câmera lenta
que é a paixão climática pelo gozo da fantasia
organizo o fim de semana numa mala pequena
e o passaporte desgastado, que já não conta
o país que é, enfio no bolso da frente do jeans
de lavagem clara: um símbolo de rebeldia!
como quem diz, abaixo à roupa escura
que escolho para cobrir desejos de adolescente
e pequenos segredos em linhas retas do corpo
passei as sete horas que voei, sem conseguir decifrar se estava dormindo ou fingindo
naquele estado que o sono impede o sonho
e o sonho impede o sono e os dois viram
um grande bolo de linhas de costura de lã:
imagino um suéter das minhas obsessões
penso que seria quente e de numeração larga
foi depois de assistir o sol se pôr em napolitano
que um dos corredores da minha mente trocou o piso para pedras gordas que derrapam fácil
num caminho de geometria longa e estreita
que consigo passar se me desvendo do sério
e desfruto dos tombos como um beijo no granito
ou um tipo de brinde sincero ao desequilíbrio
estou vivendo um eterno verão: desde que o sol entrou em leão, meu coração bate suado de fé
em novidade e caos e vielas e quartos e sofás
em gente fora da redoma e ainda sim brilhante
em observações da vida exata e leve e agora
doando pequenas atenções para dores grandes
fervendo no delírio de estar permanentemente encantada pelo muito e também pelo mínimo
agora coleciono as tentativas de me amaciar
em conversas ríspidas e me encontro divertida num senso de argila, é curioso, me sinto melada
e ao mesmo tempo pronta para secar rapidinho
principalmente quando ouço uma nova história
que daria novela: uma filha que é fruto da tal ardência momentânea entre melhores amigos, me conta numa mesa de bar, delícias genéticas que só são permitidas em narrativas brasileiras
quando um brasileiro nasce, o drama ganha:
sábios do divino bebem, a turminha de teatro experimental do céu prepara danças modernas,
batalhão de espíritos sincronizam alongamento,
e assim o além enriquece novas superstições, permitindo pequenos milagres… rebolando! para mim, fantasmas ao redor do cosmos estão sempre brigando pela chance de ser do brasil
não tem jeito, deve ser terrível não ser latino
por isso pouco me chateio que meus laços são majoritariamente acima de trinta graus celsius
(com todo respeito aos meus amigos sulistas)
e ficou ainda mais bonito nos últimos meses
já que fiz pelo menos vinte e um novos amigos
e me apaixonei bem mais do que cinco vezes
por histórias que só existem à beira do achismo
o motivo das sete horas de vôo repentinas
para quarenta e oito horas infinitas em madrid
foi para comemorar uma dessas pessoas lindas
que tive a sorte de conhecer em terras lisboetas
numa conexão de palma da mão e riso aberto
tão sincera que o destino fluiu carinhosamente
durante o percurso da vontade até a loucura
para ser justa com a minha pressão e cabeça
eu deveria talvez começar um ensaio sobre
as tantas manias histéricas e cada vírgula crítica e todo o afago e cafuné, que me faz sentir pescada e exposta, feito um peixe azarado que arrisca a amizade da sereia e termina em aquário de shopping, quando me proponho a ser menos inventada e mais Anna
propostas, apostas, som, luzes, duas camas
pista de dança, rajadas de vento com papel
é gringo, é nós, é falta, é casa, é menos de um neurônio, são poucas ideias e muito conteúdo
um bar, dois bares, três lares e quatro pares
o primeiro pare é bom, o segundo não, o terceiro é o breu, o quarto sou eu e no final não bastou
minha mente acha que, se eu pensar vezes o suficiente, vou encontrar o início de todos os muitos e diferentes nós que apertam meu peito
e que vou desatar tudo com questionamentos
mas é tudo bobeira, já que eu jamais estive próxima de encontrar sobriedade fora do TOC: agora mesmo estou repetindo uma cena que já passou tanto por trás dos meus olhos que, em instantes pode acabar se tornando memória
conquisto aos poucos o conforto de ser Anna em novas bocas, mesmo quando é nalü que soa
no vento que permito balançar de perna bamba
e embora não me agrade atenções menores
é tão gostosa a viagem para fora do trema!
me vejo vibrando por personagens distantes
do que um dia guardei em gavetas criativas
para criar a mais ordinária (e também por isso fantástica) aprovação para ser invisível à mim
fui escrita num caderno dourado, na premissa de descobrir como é que se faz a letra N em cursivo, se tem que ser mais magro ou mais gordinho, como pode ser visto esse desenho? logo a folha foi ganhando a letra D, a letra B, a maioria em formato de alfabetização, embora alguns rabiscos fossem em garrafais redondos… depois de dois pontinhos, uma pergunta: por que o trema? depois da resposta, um desejo que eu julguei já realizado: “eu também quero uma carinha feliz no meu nome”
ouvi de uma mulher Braba, Brabíssima, tão doce quanto feroz, a seguinte frase: “eu tenho muita confiança para partir as coisas” discutíamos a repartição de uma mozzarella! e essas palavras encontraram o lugar que meu corpo faz eco, bem no buraco onde falta coordenação e onde fabrico meus desastres com garantia
para mim, que assisto com gosto essa mulher existir e comentar do mundo e da vida, foi mais uma das tantas flechas que ela atirou em meu peito medroso e sempre aberto para ouvir do quanto somos diferentes e, como que é possível usar a boca e o coração baseando-se em dados, de um jeito único e afiado e fascinante
também sobre coisas que atravessam do nada: por um momento senti o tempo em mini agulhas
fui furada por todos os lados de todos os jeitos
tive vontade de chorar e de rir e de rodopiar
de ser objeto e de ser gaivota e de ser partícula
e quase que me rasgo de vergonha quando procurei por um conforto no abraço errado
(espero que ele tenha entendido da onde parto quando trocamos a tripla ação pelo total doze)
parei de evitar a inundação de tristeza e decidi
encostar o corpo inteiro no sofá de uma balada
e às 3:41 da manhã, escrevi assim, sem querer:
(…)com parte do corpo exposto, ela deixa de pertencer à realidade aos poucos, para ser parte maior do universo, mesmo como estilha solitária sem razão, e sente-se condenada para sempre a ter nenhum lar longe do abstrato(…)
brinco que exerço a engenharia da sensibilidade
e tenho usado ferramentas não tão familiares
para quem sabe aprender a manutenção do tal corredor com piso novo que se abre para mim
na expectativa de que um dia eu não precise
do outro para qualquer manuseio de auto-afeto
as histórias que eu poderia contar de madrid
vão viver melhor nos ouvidos do que nos olhos
pois por enquanto ainda não aprendi a me desprender dos versos, e talvez tudo isso mereça uma narrativa mais clara e menos cheia de efeitos especiais da prosa metida
mas segue um teste para registros futuros:
na calle gran via 65, o silêncio ficou foragido
e suspeitos do crime estavam no quarto 309:
eram três grilos falantes que foram vistos transitando de preto pelos corredores, numa sacola carregavam uma garrafa de gin, água tônica, potes de salada e algumas bananas! eles são também conhecidos como “o tríplice mistério do stop”, e para além do sequestro do silêncio, essa quadrilha coleciona multas por roubar a função da equipe de limpeza de baladas madrileñas, e criam trilhas sonoras com um objetivo claro de nudez
um dia desses: por arder demais, quase que despedaçam, as jubas de duas leoninas que derretiam queixas, mas brevemente depois, atearam tudo ao céu desenhado de estrelas
no outro: um aniversariante deixou de aparecer no próprio almoço, e convidados comemoraram com os olhos fechadinhos-de-noite-anterior
há quilômetros de distância de madrid, em alguma rua do brooklyn, em nova york, dizem que foram encontrados vestígios de cócegas em uma mulher que é mais ideia do que matéria
e com isso criou-se um mistério laborioso: quem é que provoca o gozo do que é invisível?