o que rege minha mãe

Amanhece chuvoso, treze de maio de dois mil e dezenove. Tempo ruim como em dois mil e nove e todos os anos pra frente que me lembro. Há 10 anos papai morreu nesse dia. Se minha garganta dói é de pólen ou saudades. O gosto amargo na língua são as palavras não ditas. Agora serena, abro um pote de sorvete e pego o telefone–– afinal, é dia das mães, justo hoje. Minha mãe quando conversa feridas, arruma maneira de terminar em um sorriso virginiano perfeito, ensaiado a vida toda. Por mim tudo bem, porque ao final, o que ela cobra mesmo são palavras escritas. Mal acostumada. Casou com um poeta e pariu uma também. A vida inteira organizou maneiras de burlar obstáculos, orquestrou contra juízes (tribunais e familiares), dançou essa valsa, plantou coragem em terras virginianas, estendeu ao mundo a mão cigana e nos trouxe até aqui. Plural porque somos três filhos de Anna Beatriz e Paulo. Eu falo de pai e mãe e ouro de mina. Entendo tanto do assunto quanto entendo Açaí de Djavan. Assisti de outro fuso, minha mãe se tornar, finalmente, gente. Que organiza e orquestra e dança (virginianamente) só a própria vida. Foi pra essa nova mãe que eu liguei. Essa que, dia desses considerou o cabelo natural, do jeito que era quando eu nasci. Aí achei uma loucura Freudiana demais. Fui contra. Não consigo pensar que ela ainda vai mudar muito de aparência. Quando minha mãe sentiu que terminou a jornada por nós quatro, decidiu pegar uma nova estrada. Só não achei que fosse a de caminho à São Pedro da Aldeia. Fui contra. “Porra, mãe! região dos lagos?”
Nessa nova fase minha mãe viveu medo, dor e até cirurgia. E eu longe. Sobre isso eu não falo, eu soluço. Outra coisa que sou contra é a doença dela. Aliás, a coisa menos mãe que uma mãe pode ter é problema no coração. Se eu pudesse processava Jesus Cristo, que começou com essa merda de coração que entra pro sacrifício pelos filhos. Quando escrevo nos dias treze de maio, é pra lembrar que certos anos atrás, uma parte de você também morreu com papai. Mas reiniciou sob as poças de lágrimas na triliche do nosso quarto, pra se tornar uma mãe mais pessoa. Sem escolha, sozinha, foi uma família inteira. Às vezes eu acho que apenas a minha mãe poderá salvar o núcleo e manto e costa do planeta. Penso: quem dera se os cidadãos (e o engenheiros civil) conhecessem as soluções rapidamente-sensacionais que ela tem na ponta da língua. Amo minha mãe-ser-de-terra e planta e árvore e oceano e céu e o universo inteiro e cosmos e suas luzes e o que tiver depois de tudo que vocês duvidam que existe. Eu não duvido de nada, porque sou filha da minha mãe.

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