caixote ou caldo ou vaca ou qualquer outra variação regional

Nos nossos votos de casamento, escolhi falar sobre o nome dela. Se existiam sementes dentro de mim, quando descobri que ela também escolheu falar do meu, me tornei um jardim (infinito) de prazeres cantados em onomatopéias. Há uns anos, escrevi minha primeira música. Tinha acabado de começar a fingir que aprendi tocar violão. Metida que sou, compus “catavento” aos 16 anos. Na época, jurava-que-sentia-que-minha-vida-era-rodar-e-rodar e nem sempre saber quem me soprava. Aceitava que ele, o vento, levasse tudo, sem controle. Nada moderno como o “deixar ir” que isso eu não sei fazer. Mas se era pra voar que fosse rumo ao caos em formato-furacão. Foi aos 21 (como previu a mãe de santo) que casei com a moça que se chama Gira. Parecia uma brincadeira das estrelas. Tudo foi desenhado pra que minha cisma em acreditar em ciclones e não nos ciclos, encontrasse o momento em que eu andaria rumo ao Sim. Nalu significa onda. E gira, significa o que você quiser. Como choveu naquele onze de julho! Tempestade–– vento e água e relâmpago e trovão, lavando tudo na mesma medida que empretecia as vestimentas brancas, como manda a Umbanda. Eu e ela, filhas de fenômenos naturais, girando na loucura em ondas, como caixote ou caldo ou vaca ou qualquer outra variação regional da palavra. Juntas fomos a semântica que um dia engoliu muita água salgada. Hoje, tomamos o banho de doce-contraste. Amor que não é bronzeado é chato. Quando noivamos, decidimos que nossas respostas ao mundo seriam músicas sem significado. Tatuagem de tatuagem. Bolo de cake. A repetição na voz de Cássia na letra de Nando quando diz que não tem explicação… Pra quem quiser saber, casamos porque dividimos o chamego abrasileirado do Caetano-sem-propósito “pra lá de Marrakesh, mexe qualquer coisa dentro, doida, já qualquer coisa doida, dentro, mexe.” O amor caribenho celebra horas efêmeras da rotina e por isso é eterno em todo milésimo de segundo. Sem enganos, esse amor é também telegrama. Uma carta do presidente, oficial, coisa de gente importante.  Você não entende nada, nem eu, a gente não entende nada, nem nós. Porque se tiver que explicar a gente perde a beleza de se perder nas imperfeições. O que não conseguimos decifrar é o que nos mantêm na busca–– não por sentido, que essa palavra quando brega, soa pretérito. O casamento é a esperança verbal mais bonita na conjugação em futuro do presente.

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