as colheres e o papel higiênico

em algum lugar não tão distante quanto o outro quarto e nem tão perto quanto outra dimensão, começa o treinamento do tratamento de princesas. se arrumam em fileiras todas as mocinhas e mocinhos da vila que gostariam de trabalhar em prol do conforto da realeza. e a realeza é muito exigente: esse é um trabalho dificílimo. requer muito esforço e há boatos de quem morreu disso. dizem as amargas línguas pelos becos escuros, que há quem apodreça por dentro ao realizar essas tais tarefas absurdas. sabe-se que doar-se por completo é perigoso. a princesa, por exemplo, exige que quando chegue de uma viagem longa, encontre pelo menos um rolo de papel higiênico. veja bem, os mentores deixam claro que ela não espera encontrar uma geladeira cheia, nem toalhas limpas, nem os corredores perfumados. até porque, pensar que a princesa chega com fome e com vontade de tomar banho é muito difícil imaginar. quase que não passa pela nossa cabeça que depois de dez horas de viagem alguém necessite de um banho. não seriam malvados, os professores, a ponto de cobrar consideração tamanha de seus alunos. mas o xixi… isso é inevitável. gente precisa ir ao banheiro. princesa é gente. coitadas, princesa também caga! quem diria! esse é o aprendizado número um do primeiro dia e único dia de aula. sobre como manter o castelo, que tem mesmo o chão desnivelado, que tem problemas com ratos, que é mal pintado, não respeita uma regra de feng shui, onde tapete de banheiro nem pensar, sabonete líquido também não se cobra (existem duas barras que é para serem dividias entre as visitas e a realeza), é melhor manter assim. é porque quem paga é a plebe e seus impostos. ai da princesa se reclamar das condições de sua torre! nessa vila não tão distante quanto dois trens e nem tão perto quanto outra boca ressecada-sem-beijo, não deveria haver realeza, de fato. há muito tempo que são falidos. há muito que são sustentados pela mínima compaixão daqueles que tem um respeitinho bonitinho pela sua história. a princesa, que veste trapos sobrepostos de verão durante o inverno, tem sim algumas coisas. dentre elas um jogo de colheres, garfos e facas que ganhou como permuta no antigo trabalho. princesa é gente. gente às vezes faz publi. princesas também tem sonho de blogueira! quem diria! de volta ao treinamento, deixa-se claro que uma das exigências da realeza é, caso haja problemas com rato e eles façam morada na gaveta de talheres, que arrumem uma forma de substituí-los! ainda que seja um de cada. a princesa espera ter um garfo, uma faca e uma colher que seja. não seria cobrado aos alunos -moços e moças da vila- que de fato comprassem um jogo inteiro. afinal, a loja em que todos os itens custam uma nota da moeda local, se encontra há duas ruas do castelo. andar duas ruas é inimaginável para quem se propõe ao tratamento de realeza. aprende-se também que geneticamente a coluna de princesas é muito frágil e dolorida, mas não há humanidade que possa resolver. é dito o fato: pedir ajuda para coisas pesadas não é direito da princesa, não nessa vila. o treinamento dura um dia. ao final, sobra apenas uma moça. moça essa que, depois de escolhida, ganhou por meses o direito moradia no castelo enquanto a princesa viaja. mas preferiu fazer tudo à distância e deixou que amigos desfrutassem dos travesseiros velhos e da cama quebrada. era esquisito trabalhar no tratamento da realeza, sem realeza presente. a vila inteira concordou. por isso, a moça, uns dias antes do retorno da princesa, até que foi ao castelo jogar fora tudo que viu pela frente. tudo que ratos poderiam ter tocado. sua família, arqui inimiga das bobagens monárquicas, ficou muito impressionada e orgulhosa com o trabalho prestativo de sua filha rebelde, que resolveu se meter com a princesa. muito certa de que é a melhor no que faz, esvaziou a geladeira e a dispensa e os armários: colocou tudo em sacos de lixo. no tratamento de princesa isso não é incluso, mas a moça é mesmo boa pessoa. contra todos os flocos de neve vários que cairiam no dia dezenove de fevereiro, é esse o escolhido grande dia em que a princesa retornaria ao seu castelo. há anos a realeza não tem orçamento pra carruagem ou oportunidades de amizades não-burguesas, quem paga seu retorno é a plebe, portanto princesa não reclama. todos seus amigos estariam trabalhando. aí a princesa levanta suas malas sob a neve e contra escadarias. que ninguém tenha pena da realeza! neste conto é proibido quaisquer sentimentos de compaixão. essa princesa há muito tempo perdeu seus direitos de ser compreendida. deixe que ela junte seus restos de monarquia falida e lute toda engraçadinha, com todas suas unhas cortadas, por um rolo de papel higiênico e seu jogo de talheres. finalmente passou pela porta gigante e empoeirada, depois de empurra-la com todos os seus ossinhos vertebrais. não havia papel higiênico. abriu a gaveta. não havia mais colheres. mas lhe restaram os pontiagudos garfos e facas. não entendemos o porquê. princesa também é gente. nem sempre gente tem respostas. mas tem improviso. a princesa usou papéis de carta e desde então, resiste com garfos e facas, a fome de continuar existindo.

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