a etimologia da palavra título é um tipo de eita

uma menina que não entendeu exatamente porque não passamos a vida tontos se a terra gira o tempo todo. aí aprendeu a fingir desmaios. também porque o som dos fonemas da frase -eu desmaiei- era interessante. mas não mais interessante do que certas dúvidas. como por exemplo. se desmaiar é desfalecer o que seria maiar e o que seria falecer. descobriu que adulto nenhum sabe a resposta. a não ser que seja professor. vai ver ser professor é a única maneira de ser adulto e interessante ao mesmo tempo. outra dúvida era essa mesma. por que a professora da segunda série parece ter mais verrugas do que interesse pela vida. o que gera outra dúvida. será que a ruga é o sinal do desinteresse pela vida. taí uma palavra. desinteresse. que é o contrário de interesse. a menina nunca encontrou o momento certo de perguntar da onde veio essa ideia de por um -des- antes de certas palavras pra indicar que na verdade não é bem isso. só que desmaio não parece o contrário de maio. maio é o mês. o contrário de maio é maia que é o sobrenome da menina que tem uma merendeira da barbie. fora que desfalecer seria como voltar a viver. sendo que desfalecer na verdade é um gostinho do que é falecer. menos quando é de mentira. aí parece mais o ensaio do que se faz quando a mãe manda dormir e a gente não dorme. ela não tentou achar o momento correto de perguntar sobre rugas. mas queria muito perguntar sobre verrugas. porque a dúvida era a seguinte. será que verruga chama verruga porque é a ruga que a gente vê. por isso o ver antes. além de tantas perguntas outras a menina tem também muito medo. na verdade é um medo só. que é para a palavra -medo- soar mais exclusiva. as definições ficam mais intensas quando significam uma só coisa. sem nenhuma outra adição ao sentido fica tudo melhor definido. isso na cabeça da menina. que evitava pensar que talvez não dê tempo de conhecer todas as palavras do mundo. o medo era esse: existe muito mundo. muito mundo acostumado com o giro das coisas sem se perguntar o porquê. quantas pessoas será que desmaiam por dia. esse era um pensamento que substituia o lugar do cérebro reservado para tabuada de oito. será que a gente só vê a vida de verdade quando rodopiamos. ta aí outra palavra. rodopiar. ninguém pia quando roda. seria esquisito. será que a gente copiou isso do conceito do som-enquanto-onomatopéia dos passarinhos. ou pintinhos. sei lá quem faz esse barulho. a gente que não é. ou será que rodopiar é uma conjunção engraçada de rodo com pia. mas aí não faz nenhum sentido. trata-se de fato de uma menina preocupada com coisas que não fazem nenhum sentindo. como que porra é essa de gravidade e – qual foi o momento que a gente decidiu que usaria essa mesma palavra para dizer que algo é irreparável. ou bastante complicado. gravidade deveria ser exclusividade da ciência. e por tamanha chiqueza nenhuma variação explicativa. há palavras que precisam de um significado só. essa era uma das únicas certezas que tinha até agora. a menina mesmo que ainda tão menina dizia porra. porque gostava mais de palavras com dois erres fortes do que chocolate. porque não faz sentindo nenhum o cêagá. pelo menos não verbalmente. é chato tudo aquilo que se escreve diferente do que se fala. vários escritores são assim. por isso a menina quer ser tudo menos escritora. cruzes. mas se pudesse engolia o dicionário e forraria -outra palavra que a menina adora- o estômago com estrangeirismos que surgiram depois que o computador começou a chegar na casa das pessoas. vai que assim ele -o orgão- -aliás orgão deveria ter dois erres- pensava ela- desenvolve uma tecnologia para não doer e tremer de frio toda vez que encontra uma outra-menina-maia que tem o cabelo tão cheiroso e sabe enrolar a língua no formato da letra W. dábliu. não faz sentido essa letra poder ser escrita como uma palavra. que coisa mais patética essa de conseguir escrever dábliu para se referir a W. porém soa tecnológico. isso é inegável – se inegável existe deveria existir também a palavra desconcordar. talvez seja essa a folha do dicionário -a do dábliu- que escolheria para envolver o estômago. não havia palavra proibida na cabeça dessa quase-grande defensora das onomatopéias críticas. e onomatopéia crítica é – todo barulho que substitui um pensamento opinante negativo. que ela explicava com cuidado para outra-menina-maia na hora do recreio. como por exemplo a especificidade que ganha a palavra eita quando seu irmão serve três colheres de arroz ao invés de duas. que é completamente diferente de quando se diz eita como resposta para – esqueceu o dever de casa de novo menina ou o eita depois que entrou outra menina com sobrenome maia na escola. quem nem era prima nem parente nem conhecida da primeira maia da merendeira da barbie. ou o eita quando descobriu que pessoas podem ter o mesmo sobrenome sem nem mesmo ter se visto. sem nem mesmo saber quantas colheres de arroz que a outra pessoa come. a menina crescia no mesmo ritmo das palavras inventadas contemporaneamente. mas de certa forma também descrescia cada vez que achava uma resposta. outro dia achou um novo conceito para palavra eita depois que percebeu que provavelmente todo dia alguém inventa uma nova maneira de dizer ou desdizer alguma palavra. porque tem muito mundo no brasil. muito mundo em português no brasil. ta aí outro eita. parece um medo novo. e agora. são muitas dúvidas e muitas palavras e uma só menina. muito mundo. muito mundo. tomara que não haja nenhum desmundo que pensou a menina antes de fingir um novo desmaio.

9 thoughts on “a etimologia da palavra título é um tipo de eita

  1. Nalü, pelo amor de deus me transforma em um personagem teu de um troço qualquer (tem que ser careca pois sempre quis me ver careca) Quem sabe assim eu entendo o que sua-cabeça-quase-dicionario faz com as palavras para elas se tornarem isso.

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  2. Que sensação boa esse texto me causou. Começou no estômago, foi subindo e se espalhou pelo corpo. Um calor da 1a série enquanto a professora falava, mas eu não ouvia. Minha mente ia para longe. Pra vários por quês bem longe dali. Obrigada por essa sensação. Por esse sentimento. Por esse calor. Obrigada pelo texto que me deu um abraço bem apertado. Sua escrita é fascinante.

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  3. já olhou pra uma pessoa e pensou: o que passa na cabeça dela? kkkkkk você é sensacional. e eu preciso deixar aqui que eu odeio o som de quando a gente fala “muito mundo” e também não gosto de ler isso pq pro meu cérebro não faz muito sentido. me perco.

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  4. Maia é ilusão,véu ….,
    assim fiquei lendo esse texto que me trouxe a desfaçatez de fundir meus neurônios lentos e desmaiados nesse retrato de dúvidas….. coitada da menina 👧 e de mim que fiquei pensando agora em todas as ilusões das palavras kkkkk des faça tez
    Tez minha, sem rugas ainda….
    Nalu Inspira ! Te amo ❤️

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  5. Me identifiquei tanto com a menina com sobrenome maia da lancheira da Barbie. Que texto incrível nalü, obrigado por essa lembrança e saudade da infância que eu nem sabia que tinha.

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