RIP (ríspido impetuoso pretérito)

achei interessante a existência de você. te admirei o sotaque das ilhas caribenhas e sua morada no fundo do copo das cervejas que competiam atenção com seus lábios ressecados por falta de beijo meu. achei sua vida muito ruim antes de mim. achei que não gostei das suas escolhas do passado. como por exemplo nascer em outro país que não o meu. primeiro ridículo. depois muito legal. aí passei a te procurar menos e te ver mais. te vendo eu passei a te achar. engoli suas risadas com molho ardido -e olha que eu odeio- e pintei seu pescoço tropical em minha parede. os achismos viriam no pacote junto comigo foi o que eu avisei. e meus lençóis cor de creme também. amarelado proposital. não me olha com essa cara que eu respondi depois do seu monólogo de sobrancelha. melhor que branco brilhante sujo de choro e méqui donalds. entenda: já é creme. não ficou creme. ninguém gosta do branco que vira creme. mas é chique o creme que sempre foi creme. você também tem achismos que eu respondi argumentando contra sua testa franzida. como a esperança de que não vou sentir gosto de milho em todas as comidas mexicanas de manhattan. viu. olha que legal. somos dois pacotes de achados não-perdidos. seja lá o que isso significa. a gente riu. achei que tinha achado uma moeda no bolso e era um anel. a gente riu. achei você numa nuvem avisando em gritos a chegada da noite às quatro da tarde. a gente riu. achei só pra você um pedaço de papel japonês e colei minhas letras na sua calça jeans gelada que passou a madrugada deitada na frecha de frio que bate no chão. a gente sentiu paixão. nunca te achei uma vírgula que prestasse quando decidi te achar palavras. mantive a cama de solteiro só pra não ter que casar tão rápido. não adiantou. foi na caneta prestes a estourar que a gente sentiu o amor tremido e riscado de azul no amarelo proposital da folha da cidade de nova iorque permitindo nossa união. ouvi que pra você lençol bom era lençol brilhante. me achei mais preparada pra moeda que era anel do que pro lençol que era branco. aí me dobrei a cabeça que só pensava em voltar e voltar e voltar pra você no dia seguinte da escolha de não dividir mais nem discutir mais lençóis. essa coisa de dobrar a cabeça é um achismo-ação que não sei explicar. como também nunca soube o motivo do seu muito-suor versus o meu-pouco durante o verão na cama do bronx. lembrei metade daquele ditado que até agora não sei bem como é. mas é alguma coisa de maus lençóis. sei lá. outro achismo-ação era sua mão na minha desviando dos pedregulhos das não calçadas das ruas que engarrafam porque são longe do metrô. tinha também o achismo que era a não vontade de viver o outono inteiro porque é tudo muito indefinido. tinha o achismo-certeza como a necessidade da existência de uma mágica que apague a luz quando já nos deitamos. fomos nos achando nos rodapés da nossa história e da nossa casa até que viramos título e teto. fui te achando em calendários de seriedade e no meio dos ponteiros de todos os meus relógios. você foi me achando em ampulhetas e panos de prato bordados de brasileirismos. deixamos tudo sempre muito perto pra nos acharmos sem procurar. nossa vigia: tudo que somos: pra que não se perca nada. essa é uma frase que indica que o tempo passou. pronto. um dia eu chorei em cima do lençol florido da minha mãe que disse que quem procura acha. eu perguntei e quem acha procura por acaso. muitos pontos de interrogação como skin care routine na minha cara desde então. aí escrevi num papel branco muito branco mesmo: te achei tanto que esqueci de te procurar. agora vivo presa em uma única conjugação toda vez que te escrevo. pretérito é meu cu. me pergunto se isso tudo não é o resultado da troca do creme por branco tantas vezes. parece que eu acho que morreu o meu jeito de te dedicar achismos. agora é a parte que eu volto no início pra fazer um gancho com o final que é uma forma bem brega de terminar o que não há final. chinfrim isso de analisar o início pra entender o fim. essa agora é uma frase de efeito muito foda e quase que soa como algo de fácil entendimento. pronto. não acho interessante a des-existência de você. e des-existência é um achismo-achado meu que é pra não ter que usar desistência como última palavra dessa bobeira toda aí que eu disse.

14 thoughts on “RIP (ríspido impetuoso pretérito)

  1. é foda sentir cada palabra que mesmo que a gente não entende nada a gente entende tudo nalü obrigada por existir e por em arte coisas tão lindas assim meu Deus eu eu te amo

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  2. Nalü, tem algum lugar onde podemos comprar o teu primeiro livro pelo menos numa versão online? Na amazon não tem mais e eu já cacei nessa internet inteirinha )= na amazon tem a versão inglês, no kindle, porém não libera para o Brasil

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  3. ai nalü… não sei se é por causa da tpm, mas eu tô chorando bastante com seu “troço”. o importante é saber que sempre será bom enquanto durar – ou enquanto não acharmos nada. fica bem abelhinha, até a próxima terça, digo, quarta a tarde.

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  4. pretérito é o espaço de tempo em que os lençóis brancos viram creme por si mesmos. e a gente acaba por desistir de fazê-los existir brancos como dantes.
    pretérito é uma coisa que, as vezes, ajuda a dor a desistir de doer.
    um abraço, nalü.
    fica bem ❤️

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  5. Meu deus do céu, entendi cada detalhe… Mesmo não fazendo parte de uma decoração ao lado do momento em que “sentiu o amor tremido e riscado de azul no amarelo proposital” … Se achar e se perder, no meio da existência de ser… e deixar de ser, como que acontece a “des-existência” quando a existência sempre irá permanecer!
    Mas no fundo no creme sempre será creme?
    E tudo retornará ao sopro do achismo perdido em meio aos sotaques líquidos…

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