Bueno, bom, good

morning, mañana, dia! Minutos depois yo derrubo café na sua t-shirt e segundos despues disso, em meu braço. Você lambe e diz que é assim que ficaremos rich e hacer millions: uno coffee que tem gosto de mim. Eu corrijo: café que tastes like amor. Todas as vezes que o sol shines en su cara, nos perdoo por não ter colocado as cortinas yet. O reflexo da janela em nossas piernas é um recado dos céus de que somos reales. Talves lo que eu mais peça na vida sejam sinais divinos e music. Nesse dia, à tarde, eu pedi que a gente ficasse numa good. Meio Djavan num reggaeton, mas ainda curtindo as músicas mais tristes do Bon Iver. Brigamos muito na última miercoles. Aliás, todos los dias do mês passado, em all idiomas. Planejo que hoje, quando chegar à casa, direi buenas noches. Porque você sabe que gosto de dizer good night em suas orejas depois que digo boa noite between suas pernas. Durmo ansiosa pelo next day. Pela próxima chance de te ouvir dizer -it’s time now- e eu responder que no quiero trabajar e te assistir trazer o coffee ruim, que quem sabe, who knows, eu derrube de novo, pra você me lamber e criar a fórmula do te quiero, te amo e I love you. Não precisamos ficar rich, nosotras temos é que parar com as fights.

um ensaio sobre o pomo da discórdia

quando a gente corre atrás de uma borboleta será que ela sabe. será que a borboleta olha os prédios borrados dançando na velocidade das asas e ouve as buzinas dos carros e dos ônibus protestando contra a gente correndo atrás de uma borboleta. quando a gente escolhe um pão de sal com critérios de gosto e formato e cor e tamanho será que os outros irmãos-pão questionam sua sexualidade. será que os miolos do pão são mesmo tão iguais como dizem que somos por dentro. acho que seria bobeira achar que acho que sim. será que o sofá tem uma bunda preferida. será que os ácaros fazem festa de aniversário pros farelos que caem naquele buraco que tem entre duas almofadas de um sofá sem capa. será que quando a vó ou a mãe ou o pai obsessivo encapa o sofá ele se sente sufocado. com quantos serás e esfregões desesperados nos olhos e no rosto se faz uma neurótica. será que quando os olhos encontram o shampoo eles ardem de paixão. será que quem inventou o shampoo se inspirou no sabonete. será que eu começar uma frase perguntando sem o será ainda será uma pergunta. querido chico já estamos todos prontos para saber o será que será. quanto mais análise eu faço menos ponto de interrogação eu quero usar no que escrevo. parece que eles andam ocupados em outras aventuras do meu cérebro programados para abrir algumas vezes por semana e em certas linhas do metrô e em certos olhares vagos. mas pode ser que um dia eu escreva com vírgula e pontuação correta e esteja tudo bem. não é motivo para susto. quem será que levou o primeiro susto do mundo. se eu acreditasse na bíblia a resposta automática para mim seria adão quando viu a própria costela sair voando do nada e virar um pedaço humano outro inerente à si porém também não. imagina a doideira. se eu acreditasse em fadas e duendes e essas coisas da floresta da tijuca e vargem grande eu diria que foi o primeiro humano que comeu um cogumelo que deu onda. imagina a doideira. se por acaso eu fosse crente de liberalismo eu diria que foi quando os caras se depararam com a mão invisível. sei lá como. porque é invisível. mas eles viram. aí tem que ter muita fé mesmo. não sou capaz. imagina a doideira. agora o susto susto mesmo -mesmo que não o primeiro do mundo- deve ter levado lacan. quando viu um inconsciente igualzinho a um idioma. imagina a doidera. tomara que meu inconsciente tenha uma boa dicção.

o maldito limoeiro de paulo

quando tudo ainda era pouca luz
e muito-menos vasto e material
nasceu da limoeira do apóstolo paulo
uma mulher bárbara e bruta e feia
metade humana e metade limão
condenada a viver até o último verso
de todas as histórias azedas do mundo

foi expulsa do egito e decapitada em roma
e se tivesse chegado na mesopotâmia
um dia antes
a poesia nunca teria sido inventada
(quem disse foi a própria enreduana)

deu não-sei-quantas voltas
pelo mundo contemporâneo
e não entendeu que o ruído
do vento dos moinhos de amsterdam
e que o fenômeno do sol alinhado entre
dois prédios de uma rua em manhattan
estão dizendo a mesma coisa

e vagará por aí sem saber
que todo avião que pousa vivo
no santos dummont é sorte
e que guarda-chuva é a invenção ateísta
de se proteger dos castigos do céu

trata-se de uma mulher de flerte com diabo
que pouco mexe os lábios de espelho quebrado
com marcas de manchete do jornal de ontem
enquanto busca desesperadamente por um sinal
de si mesma em frases parabólicas como
– eu não sou não-boa o suficiente

pobre metade humana e metade limão
que recusou ser pintura de tarsila do amaral
que queimou os cílios na fogueira onde jogou
marco zero e andy wahrol e basquiat
que visita museus e espanta e mata tudo que
é vivo em um quadro de monet
com seu odor rutáceo

que não acreditara em missão de vida
por isso estendeu-se a escrever
ou quase isso
uma carta de despedida
à maria e seu esposo e filho
que foi o seguinte
– se uma missa já é chata e longa
imagine uma missão

que arquiteta a própria fé
apenas no que há de ser
planejado por um homem
porque é uma mulher de poucas
afirmações divinas

porque vangloria a ideia de que
deus nenhum tem o poder de levantar
várias madeiras até formar casa e prédio
e brasília e o titanic e avenida paulista
e washington heights

ainda viva em dois mil e vinte um
a mulher: acredita que um tênis
amortecedor de impacto
protege mais do que o crucifixo
pendurado no pescoço

e confia nas traduções
de sua amiga mais inteligente
que é quem lê esse verso por exemplo
e a explica bonitinho
o que querem dizer as raspas
da sua própria história
na mente de quem nasceu
no sentido figurado
da civilização romana

uma mulher bárbara e bruta e feia
metade humana e metade limão
condenada a viver até o último verso
de todas as histórias azedas do mundo
como essa

e continua

faltam histórias de nós sobre o quase fim e/ou o meio

bom dia e me ajuda a levantar que esse joelho não presta mais. bom dia. por favor abre a janela. já vou. amarre a cortina assim com o detalhe bordado virado pra fora. olha ali a vizinha deixando a neta na calçada sozinha pra esperar a van do colégio. deixa ela. que avó ruim. o café ficou pronto. mas essa xícara é do natal. não sabia. se bem que já não sei se tem natal vindo pra gente. pretende morrer. claro que não que tipo de pergunta é essa não sabe que somos muito vivas pra morrer. então vamos começar a usar as xícaras. tudo bem mas como é que você não sabia que essas xícaras são do natal. não lembrava. todo dia a gente toma café nas canecas que renata deu. verdade. e o que mais você esqueceu. nada. promete. prometo. nunca aprendi a diferença entre xícara e caneca. não tem é só que um é chique e o outro rotineiro.

boa noite e por favor fecha a cortina daquele jeito que só você sabe. boa noite. já vai dormir. acho que não. por que. veio um pensamento anti-sono. qual. e quando a gente ficar velha. não ficaremos velhas. pretende morrer por agora. claro que não que tipo de pergunta é essa não sabe que somos ainda novas pra envelhecer. e essa ruga aí na sua cara. melhor que sua mão manchada. tira a mão da minha pelanca. eu gosto. demos uma caída. já estamos velhas. ou no processo. ou isso. renata disse que botox hoje em dia não é nada e todo mundo faz. pra que mudar a cara. não é mudar a cara é melhorar a cara. melhor investir no joelho que daqui a pouco não vai ter mais jeito e vai sobrar pra mim. vai mesmo. eu sei que vai. será que faço pilates ou RPG. pilates é coisa de velho. não sei a diferença entre RPG e pilates. não tem é só que um é recomendado pelo médico e o outro pelas revistas. que merda hein.

avó. para de me chamar assim que eu não tô pronta. tem sete meses pra se acostumar. parece que foi ontem que fomos mães. foi ontem. renata tem trinta e cinco anos. ainda tenho uma calça jeans de trinta e cinco anos atrás. eu ainda sirvo em roupas mais velhas que renata. liga a tevê que a novela das seis vai começar. passou rápido. a vida ou o dia. os dois. onde tá o controle. da vida ou da televisão. dos dois. não sei mas ache logo porque não gosto de perder a abertura. da novela ou da vida de avó. para com essa palhaçada. mas você tá rindo. é de nervoso. avó. ninguém merece. vou ter que aprender a fazer crochê. pra bordar durante a novela. sim mas crochê não se borda. não sei a diferença. só sei que não se borda crochê. boa tarde vovó o que é isso na suas mãos. cruz credo não faça voz de criança nunca mais. boa tarde. você vai responder a repórter toda vez. vou e silêncio que a novela vai começar.