um ensaio sobre o pomo da discórdia

quando a gente corre atrás de uma borboleta será que ela sabe. será que a borboleta olha os prédios borrados dançando na velocidade das asas e ouve as buzinas dos carros e dos ônibus protestando contra a gente correndo atrás de uma borboleta. quando a gente escolhe um pão de sal com critérios de gosto e formato e cor e tamanho será que os outros irmãos-pão questionam sua sexualidade. será que os miolos do pão são mesmo tão iguais como dizem que somos por dentro. acho que seria bobeira achar que acho que sim. será que o sofá tem uma bunda preferida. será que os ácaros fazem festa de aniversário pros farelos que caem naquele buraco que tem entre duas almofadas de um sofá sem capa. será que quando a vó ou a mãe ou o pai obsessivo encapa o sofá ele se sente sufocado. com quantos serás e esfregões desesperados nos olhos e no rosto se faz uma neurótica. será que quando os olhos encontram o shampoo eles ardem de paixão. será que quem inventou o shampoo se inspirou no sabonete. será que eu começar uma frase perguntando sem o será ainda será uma pergunta. querido chico já estamos todos prontos para saber o será que será. quanto mais análise eu faço menos ponto de interrogação eu quero usar no que escrevo. parece que eles andam ocupados em outras aventuras do meu cérebro programados para abrir algumas vezes por semana e em certas linhas do metrô e em certos olhares vagos. mas pode ser que um dia eu escreva com vírgula e pontuação correta e esteja tudo bem. não é motivo para susto. quem será que levou o primeiro susto do mundo. se eu acreditasse na bíblia a resposta automática para mim seria adão quando viu a própria costela sair voando do nada e virar um pedaço humano outro inerente à si porém também não. imagina a doideira. se eu acreditasse em fadas e duendes e essas coisas da floresta da tijuca e vargem grande eu diria que foi o primeiro humano que comeu um cogumelo que deu onda. imagina a doideira. se por acaso eu fosse crente de liberalismo eu diria que foi quando os caras se depararam com a mão invisível. sei lá como. porque é invisível. mas eles viram. aí tem que ter muita fé mesmo. não sou capaz. imagina a doideira. agora o susto susto mesmo -mesmo que não o primeiro do mundo- deve ter levado lacan. quando viu um inconsciente igualzinho a um idioma. imagina a doidera. tomara que meu inconsciente tenha uma boa dicção.

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