casablanca’s

queria saber para onde apontam as linhas naturais das suas mãos e braços e queria saber da parte do desenho que sua camisa esconde e ouvir o som que faz o seu sorriso quando perto do meu pescoço com cheiro de chuva francesa. não sei quem você é mas minha cabeça tem certeza que deslizamos a dançar num estúdio vazio de fundo infinito. ao mesmo tempo que eu era sua parceira de rodopiar fora do ritmo eu também era a câmera filmando as rugas dos seus olhos ferozes e famintos. minha boca parava de conversar achismos e calava em espera; como uma criança; como uma velha; como todas as possibilidades dependentes de um beijo seu para uma boa noite de sono. mesmo já dentro de uma noite de sono. no sonho eu tinha pele de veludo e unhas muito bem cortadas; retas; firmes como quem cuida da vida para ter mais vida ao seu lado. a paixão andava pelos corredores da criatividade até que topou com o buraco no meio da calçada. espiou e viu que no fundo depois do ralo era o mundo. a paixão entendeu que estava prestes a acordar. nesse momento era eu a paixão e o buraco e o ralo e o mundo. queria por uma última vez deitar a cabeça em seus ombros médios e cancerianos e dizer que morarei aqui escondida para que a consciência não me descubra nunca. mas já não te via o corpo bruto. por pouco ainda sentia seus dedos percorrerem meus cabelos que voavam contra o vento enquanto eu encarava o fundo do buraco que era o início do novo dia da vida real. de repente ouvi sua voz que engrossava dois tons toda vez que respirava para repetir mais uma vez que me amava e amava e amava e amava. e eu dizia que também que também que também e que era tanto mas tanto. agora era o teto branco. a janela sem cortinas; que foi o vento que me assoprou de volta; como partícula minúscula do desejo; levando tudo do parapeito ao chão. o tudo era: um buda cinza e plantas de mentira e um quartzo branco. olhei para o travesseiro no chão e senti minha cabeça mergulhada no colchão. agora tenho de encarar que estou de volta à pertencer a um corpo nú e molhado de delírio; que é o meu; não o do sonho.

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