ceci n’est pas une troço

tudo bem o dia seguinte. que a mulher repetia no espelho todos os dias anteriores. mas nunca tudo bem o dia que foi ontem. que a mulher não dizia mas pensava secretamente e trancava essa ideia no cofre por trás da parede falsa da mente. essa afirmação ao reflexo era talvez a única conexão com a vontade de honestidade que tinha lhe restado. veja bem que essa talvez não fosse uma verdade profunda mas era com certeza sua melhor tentativa. contava mentiras por todo o resto das muitas horas que sobravam do dia depois disso. só pelo prazer de ser helena esperando por um café. pelo charme de ser gertrudes num bar contando memórias vagas de sua vinda da frança ao rio de janeiro ainda pequena. vivia há anos contando uma dramática história em detalhes sobre como perdeu sua documentação num bloco de carnaval -onde era catarina- para justificar a falta de provas governamentais sobre sua existência. quase não era chamada pelo próprio nome e a ele só confiava ao porteiro. que era quem poderia impedir os homens que furiosos procuravam por maitê do apartamento setenta e um. outros por manuela do apartamento setenta e um. os mais velhos procuravam por berna do apartamento setenta e um. trabalhava como professora substituta de francês num colégio franco carioca que a chamava um bocado de vezes por mês. isso porque a mulher tinha um trato com mirtes que era a verdadeira professora -não que nossa personagem seja professora de mentira pois de fato se formou- onde dividiram justamente as horas trabalhadas. revezavam entre gripes e parentes mortos e túneis fechados pela milícia. certa vez concedeu uma entrevista ao jornal da tarde que falava sobre o aumento da violência na cidade. contou com o peito cheio de ar o episódio do carnaval e os documentos. ao jornalista pediu que não fosse ao ar seu nome mas não contava que o editor da matéria a conhecera como rita. estava lá como rita e ao fundo a calçada de copacabana fazendo companhia aos velhinhos suados a correr de sunga vermelha. foi o que disse rui da padaria para seu joão da loteria ao lado num tom confuso e arrependido dos pães extras que colocava no saco de madalena. para sorte da mulher poucas pessoas que conhecia assistiam ao jornal da tarde. muito porque fazia questão de se envolver apenas com pessoas ocupadas demais. para que não pensassem tanto em sua existência ou o que mostrava dela. para que não perguntassem para confirmar o que ela já não lembrava que tinha dito. mentirosos são na verdade viciados incorrigíveis da adrenalina que flertam com o precipício das ideias e acabam por cair na criatividade como cama elástica de volta à beira. não há desequilíbrio na mente mitomaníaca porque pouco importa a gangorra da identidade: ambas tocam o chão uma de cada vez e só isso já basta como justificativa. por isso tudo bem o dia seguinte e nunca os anteriores. é claro que a mulher sabia que tudo que vem depois veio antes. mas para quem inventa a própria realidade -ainda que em doses pequenas- -como a troca de nomes- o importante é fugir da estupidez do óbvio. claro. a honestidade é fraca para uma mulher que não teme o espelho.

One thought on “ceci n’est pas une troço

  1. agora me explica como que toda terça um ganho um troço novo favorito?
    toda uma sequência de imagens narradas nesse texto aí ficou digna de novela dirigida por qualquer roteirista que saísse da boca do Faustão, que nem ele falava. talvez um dia ele fale “nalü rrrromano” com aquele R puxadinho sabe? não sei me explicar, mas resumindo é uma tentativa de dizer que ficou bom demais, digno de arquivo confidencial do Faustão e música no fantástico.

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