potpourri praiano

à tarde quando o vento vestir roupas nas pessoas de sorriso frouxo que namoraram casualmente, o sol, fervendo, essa gente de poucas-partes-escondidas dos raios que procuram, tácitos, exatamente pelas brechas das peles desprotegidas, essas pessoas
de pé ardido no dia seguinte

jajá à tarde quando a maresia bater a toalha nas panturrilhas de areia das moças que
saem marchando o pular dos últimos grãos pela
calçada analógica e preto e branca que leva, coitada, bofetadas dos chinelos que fazem a trilha sonora dos créditos do exuberante longa metragem que é a maré subindo e quase beijando a avenida

mais tarde ainda, à casa, essas gentes que abrem
a boca embaixo do chuveiro pra sentir o gosto da
água no contraste salgado que percorre o corpo num degradê esquisitíssimo essas pessoas que
enchem o sabonete lilás de areia do cu e vão deixar ali mesmo em cima do apoiador-de-pé-na-foda pra que a próxima gente no banho lave embora os mini pedaços do leme ou que acredite num sabonete exfoliante de nome francês uma essência de lavanda, especial, algo como lavand’cù

as pessoas que deitam ao travesseiro com as orelhas entupidas de salivas de peixe ou o xixi de um homem de meia idade que joga frescobol de sunga vermelha com seus amigos também broxas ou o gozo das sereias ou vômito das águas vivas que passam mal depois de provar o gosto de um humano, eca, um humano ou qualquer outra coisa também apavorante que se espera encontrar ao mar do rilde janeiro

as gentes que foram ali donas de alguns metros de areia e que estenderam suas cangas de lembrança da bahia como quem finca bandeiras ao dizer terra vista e colonizaram os arredores com castelos de areia e isopores com coca-cola e sanduíches de pasta de ovo ou atum enrolados no alumínio e a curiosa piscininha de plástico que ninguém nunca viu encher só viu cheia e pensa-se como é que o filho da puta fez pra trazer água até a meiuca quente da areia? no baldinho cor-de-rosa da polly pocket é que não foi

essas pessoas que no facebook despejam suas vírgulas mal colocadas na raiva do movimento sem terra (eu que também mal posiciono vírgulas pelo menos não as coloco em textos do zap) todas elas, as pessoas do rio de janeiro, principalmente o moço do matte que passa e nós, as gentes de biquinis mal posicionados e bronzeadores vencidos achados no fundo do armário do verão de 2005, como não estamos nos perguntando como (?) é que é possível (?) uma cidade assim tão culturalmente organizada nos mínimos detalhes dividindo a areia entre funk e arrocha e as internacionais mais tocadas, tão sufocada e fadada a tantas infelicidades

à noite eu deito pra ouvir de longe o fantástico dando as notícias da gasolina enquanto assisto
os mais fofos tique-toques de bebês pensando caramba esses bebês também virarão gentes
como essas gentes que somos e vimos mas num mundo talvez mais cruel e com cada vez
menos chances de pedaços de areia e muvuca

existe um cansaço específico e exclusivo ao carioca, um balanço e tonteio especial que fica para-além da sensação de ainda-no-mar que bate quando, nós gentes de roupas leves e cheiro de babosa mal encostamos no sofá, pois ardemos, é um jeito de estar furiosamente exausto mas eternamente grato pelo brilho da pele, que vai descascando a dignidade ao longo da semana, uma esperança melancólica com gosto de cerveja trincando,
à espera de uma tarde que caia mais tarde
e que falta não faz o horário de verão

2 thoughts on “potpourri praiano

  1. Não fazia sentido até fazer sentido e eu me identificar com esse cenário caótico de rilde janeiro, mesmo morando na cidade da garoa. E que falta me faz o horário de verão.

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