canudos de plástico disponíveis mediante solicitação

numa delicatessen no bairro gramercy
na parte muito ao leste da ilha manhattan
um papel sulfite impresso com um grito
em arial black
plastic straws available upon request:

assim, com os dois pontos fechando o berro
como um personagem sádico invisível esperando ansiosamente pela sua humilhação:
pedir um canudo de plástico em alto e bom som nos quarenta do segundo tempo de dois mil e vinte um

o meliante que decide tomar uma bebida de canudo perde a carteirinha de nova iorquino uma cidade extremamente suja mas que pede que seus cidadãos
sejam conscientes com o mar,
o que é difícil de acreditar
afinal estamos todos aqui flutuando em
cima de uma ilha que afunda todos os dias
para além do desastre natural: lixos, muitos lixos, vários

eu aprendi que
o nova iorquino não só
não tem medo de morrer:
ele segue ciente e faz a sua parte para acelerar o processo
-inconscientemente-
porque é todo mundo cego pelo
relacionamento tóxicoh e abusivoh
que se tem com o CEP
é impossível odiar nova york sem amar
é impensável amar nova york sem odiar


em todos os lugares tem opção vegana
não existe um cachorro abandonado na rua
mas muita gente passa fome
morando em calçadas
o metrô te leva para qualquer
dos muitos cantos da cidade, até mergulha no rio se for preciso e
tem ônibus, tem embarcação e até teleférico
isso tudo com um preço, não o $2,75
você paga assim:
se sair de casa 7:01
você chega na hora certa
se sair de casa 7:03
chega 20 minutos atrasado

por uns meses vivi a maior bobeira
sob uma promessa de que não escreveria mais sobre essa cidade, a não ser que
fosse falar de existir nela
e não sobre ela existindo em mim
isso porque a primeira vez que
fui plagiada na vida
foi o primeiro texto que escrevi
sobre nova york

aos dezoito anos
eu publiquei pela primeira vez
como eram minhas primeiras percepções
era um texto tão meu, que para
o sucesso do plágio
foi necessário que mudassem
as partes tão intimas
para outras genéricas, por exemplo,
trocaram jonas brothers
por justin bieber
e aí, rapaz, essa me explodiu

uma fotógrafa, na época relevante
na comunidade brasileira
copiou e colou meu texto e foi
aplaudida, curtida, compartilhada
viralizada, com as minhas palavras
pois eu virei o bicho
como uma mãe que protege o filho
e acho que nunca fiz um barraco tão
grande na minha vida
naquele dia eu poderia facilmente
empurrar o navio no canal de suez
com as minhas próprias mãos

no não-pedido de desculpas ela disse
que tinha encontrado meu texto na internet
como “autor desconhecido” o que é a mentira Maior Que Ela Poderia Contar
já que o texto
literalmente terminava assim:
Nalü também é textão!
(pobre de mim aos dezoito anos
escrevendo desse jeito no falecido facebook)

hoje em dia eu super superei
logicamente não existe possibilidade
de não escrever sobre essa cidade
por isso desejo a ela que um dia
peça em alto e bom tom, em arial
black negrito, assim
no Meio do bairro gramercy por
um canudo de plástico 

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