o que há de chave baixa

na cadeira ou espelho
era grande-gigante
e muito muito cheia
do afeto que afirma
ser ruim porque é
e ainda sim
a amo

chama as gentes
de pequenas pessoinhas
porque é dona das questões
em propriedades articuladas
na ponta dos dedos críticos
da solidão coberta com
retalhos de mudas e farpas
da gaveta e vômito

eu a sinto nas cicatrizes cítricas
frescas e greco-teatrais
e no suco inteiro azedo que
era extraordinariamente mal bebido
pelas pessoas que com certeza a queriam
bem menos bem que eu
e outras tragédias

como é ruim sentar no banco
da praça quase vazia que é a confiança
e ter de companhia apenas pombos
que odeio mais do que a ela
que na verdade não odeio
nenhum pouco

de vez em nunca
procuro por motivos
para fingir que quando
esquento o corpo
é de tristeza

casablanca’s

queria saber para onde apontam as linhas naturais das suas mãos e braços e queria saber da parte do desenho que sua camisa esconde e ouvir o som que faz o seu sorriso quando perto do meu pescoço com cheiro de chuva francesa. não sei quem você é mas minha cabeça tem certeza que deslizamos a dançar num estúdio vazio de fundo infinito. ao mesmo tempo que eu era sua parceira de rodopiar fora do ritmo eu também era a câmera filmando as rugas dos seus olhos ferozes e famintos. minha boca parava de conversar achismos e calava em espera; como uma criança; como uma velha; como todas as possibilidades dependentes de um beijo seu para uma boa noite de sono. mesmo já dentro de uma noite de sono. no sonho eu tinha pele de veludo e unhas muito bem cortadas; retas; firmes como quem cuida da vida para ter mais vida ao seu lado. a paixão andava pelos corredores da criatividade até que topou com o buraco no meio da calçada. espiou e viu que no fundo depois do ralo era o mundo. a paixão entendeu que estava prestes a acordar. nesse momento era eu a paixão e o buraco e o ralo e o mundo. queria por uma última vez deitar a cabeça em seus ombros médios e cancerianos e dizer que morarei aqui escondida para que a consciência não me descubra nunca. mas já não te via o corpo bruto. por pouco ainda sentia seus dedos percorrerem meus cabelos que voavam contra o vento enquanto eu encarava o fundo do buraco que era o início do novo dia da vida real. de repente ouvi sua voz que engrossava dois tons toda vez que respirava para repetir mais uma vez que me amava e amava e amava e amava. e eu dizia que também que também que também e que era tanto mas tanto. agora era o teto branco. a janela sem cortinas; que foi o vento que me assoprou de volta; como partícula minúscula do desejo; levando tudo do parapeito ao chão. o tudo era: um buda cinza e plantas de mentira e um quartzo branco. olhei para o travesseiro no chão e senti minha cabeça mergulhada no colchão. agora tenho de encarar que estou de volta à pertencer a um corpo nú e molhado de delírio; que é o meu; não o do sonho.

o encontro do floco com a neurose

era natal em todos os lugares do mundo menos em um. que era ali. e ali era o que seria todos os lugares do mundo caso todos concordassem que sim. mas como ninguém nunca concordou com nada desde que começou a história de que um beija o outro; e o tesão acabou com qualquer possibilidade de dois afins desfrutarem do paraíso que é o silêncio das afirmações compartilhadas; o ali segue entreaberto. como o momento entre o sonhar e o estar acordado. o ali é onde não se sabe se realmente a cama molhou ou ainda é o sonho de mar. ali é o segundo depois que o cérebro coça o pulmão quando a gente tenta se afogar de propósito mesmo sabendo nadar. eu descobri esses dias a melhor invenção do ali que é a felicidade. porque tudo que está entreaberto é sujeito à novas invenções ainda que paranóicas. e não que eu a tenha a encontrado e a lambido as pernas; que a felicidade jamais deixaria um beijo molhado sucumbir na eternidade; porque o ali e todas suas invenções precisam que tudo seja mais ou menos misteriosamente tangível; fui permitida apenas numa visita rápida pois tornou-se perigosa a vida em flertes com o precipício. eu vi no ali -de queixo caído- a felicidade; pairando melancolicamente como um floco de ouro minúsculo; habitando todos os milésimos de segundo do pré-momento do que acredita-se ser a felicidade como um todo. em sobriedade cotidiana eu te conto assim: quero energia e escolho um café e peço por ele e o espero e a felicidade não é bebê-lo mas o movimento que faz a mão que o preparou e o traz até mim. já quando abraça a língua e a paleta de sabores que cativei até hoje: não se sabe onde foi parar a tal. eu que sempre pensei que a felicidade era enorme agora me esfrego ansiosa para me limpar de tanta bobagem. é pequena e sensível. é o nanossegundo antes de virar meia noite do dia vinte cinco de dezembro. chega a ser maldita de tão perene. tive ainda mais certeza quando lembrei que não pairou o floco de ouro sob a minha cabeça depois do brinde do que se deseja numa noite cristã. desde então em frente ao espelho me pergunto por que por tanto tempo na falta dos milésimos procurei por horas. não demorou para que logo me deparasse com outro ali. um outro muito obscuro que não ouso entrar nem mergulhar nem me afogar nem muito menos descrever ou escrever sobre: aquele que existe quando a gente se olha e automaticamente se vê.

ess muss ein e o deserto e again

me deu uma rosa velha
com apenas um espinho
rosa que viveu tanto que
perdeu suas farpas
para dizer que não foi o fim
eterno da beleza
lhe restou só a identidade visual
besta tecnologia das flores

como você nunca me enfeita
me desembrulhei a aceitá-la
e de propósito furei o dedo
pois também me resta identidade
ainda que dentro da imitação de
adriana calcanhoto
por um segundo mais feliz
ou numa fantasia adormecida
que espera o elixir de um beijo

me deixei sangrar
o pacto da solidão de dois
e enquanto você assistiu
esvair em vermelho ou terracota
minhas-suas promessas
e nossa foda
eu procurava por amarras
de fé e geográficas

minha garganta arranhava
que estou viva! viva! tanto
que me confundia o reflexo
com a plasticidade das novas
plantas que chegaram
para casa nova

você me diz tudo
quando não diz nada
te peço desculpas
não é minha culpa
que você gesticula
te exijo ação
e você vai
mas aparece
em tudo
quando some

junho: a agonia
sempre eu
no feminino
num ortodoxo menage à troi
a gente e o destino
le soleil à cancêr
l’égo et mes doigts
de novo! de novo!
tudo que há de novo!

perdemos a premissa
de nos engolir enquanto dava
mas um ser de um sorriso só
não morde e nem mastiga
aí joão grilo enfrenta o demônio
e chicó enche a barriga de amor

dear man-child
i’m not bleeding
i’m blood
uma rosa velha e a cicatriz
esse é o sinal desapercebido da libído
e assim recolhemos nossas
pontiagudas pontuações
nos reconhecemos again

entrelaçam-se os joelhos
enquanto perdemos o rumo
das certezas em premissas
de sangrar mais de uma vez
tudo isso porque não se ama
em uma única chance

das imagens criadas pelo cérebro nunca antes vividas e/ou existentes

era você entre copos
e assombros sob uma mesa
que ri velha e quebrada
numa calçada esburacada
do bairro mais horroroso
que já vi a vida passar

são os sorrisos de meleca
do veneno dessa gente que
arrasta por aí os quadris
desengonçados e tortos
que me reviram o travesseiro
e me descobrem os pés
às duas e trinta e nove da manhã

envolvida de trapos chinfrim
e deitada num colchão que foi
feito para não parecer lar
ela tenta tão miserável
se alimentar das migalhas
de alguém com fome de
home sweet home

eu que sou amada no dia claro
e no dia escuro e no dia
médio impressionista
aprecio meu reflexo no espelho quando
a mão do amor da minha vida envolve
minha cintura e barriga e separa meu cabelo
prometendo aos meus ouvidos que essa
é sim a realidade que nos cabe

mas num lapso em louças
ainda sujas de detergente
a mente engordurada
procura na invenção
que é o castigo da humanidade
o melhor movimento peristáltico
desde a dor do abandono
até a digestão da solidão comum

mas num vulto do trem L
bem longe de qualquer estação
arquitetada de passado
os olhos procuram
na criatividade
que é o pecado dos amantes
a mais nítida história nunca vivida

numa fração do erro uma coitada
existiu e atravessou ruas e mais ruas
enxugando as lágrimas ao som de
uma música qualquer que lembre
a mulher amada que nunca a pertenceu
e eu acho graça pois castigo e pecado
no final são a mesma coisa

eu que te desejo tanto mal
quase que gozo só de sentir
que não importa o quão real
seja a sua história
ela só existe em
pesadelos cínicos e ridículos
empanados em feridas abertas
fritos na distração histérica

mas nunca foi tão seguro o colo
e o caminho do choro conhecido
aí assisto a beleza beijar o tempo
fazendo as pazes com cartas
e flores no porta malas
sorte mesmo é saber que
nem se produzidas em francês
seriam cenas tão milimetricamente
axiomas e alegres e bem datadas

breve tudo passa!
tudo passa breve!
porque minutos depois
do afago e do borbulho
das ideias mais perigosas
eu sou convidada ao
te quiero como nunca
pero como siempre
todos os dias
e a resposta é i do