talvez tudo isso seja coisa de maconheira

sempre gostei muito dessa história de borra de café. pra mim não há nada mais brasileiro do que acreditar que nosso destino pode ser condenado pelo pó (talvez não o aécio neves). mas, pensar que a vida cabe ali numa canequinha, me conforta. geralmente só gosta de coisas borradas quem não é míope. eu não tenho nenhum problema de visão. quer dizer, depende do ponto de vista, se ele for muito perto da minha ex mulher, provavelmente não enxergarei nada. vejo muita coisa em borrões propositais, não em pollock: fico fascinada pelo grafiteiro iniciante que deixa mensagens ilegíveis pelo rio de janeiro. nunca terminei uma borracha porque não exijo belas performances de volta ao que fomos antes. prefiro assumir que o papel desgastou depois de tanto tentar apagar erros. o chão do segundo apartamento que chamei de meu, no brooklyn, tinha um borrão no chão. uma amiga artista plástica derrubou tinta sem querer. depois disso, aquele era o limite do tapete. quem me visitava perguntava porque o mesmo não ficava em cima “pra tapar isso” e eu não tinha nenhuma resposta filosófica. dizia que gostava de borrões e, sobre o tapete, uma piada: pelo menos consegui impor algum limite na minha vida. aliás, acredito mais no filtro de café do que na capacidade-apaixonada de impor limites. ainda bem que eu sei mentir sem me borrar inteira. noutro sentido, quase sempre estou borrada nas fotos que meus amigos mais gostam. a personagem mais insuportável que eu interpreto é a que pisca até com 10 segundos de preparo psicológico e físico. não fico triste. mais inacreditável do que capturar um momento-tri-pé, é fotografar o movimento. em movimento. melhor ainda se for sem querer. aí foi que percebi que amei tão estática. não achei nossos registros borrados. vasculhei memórias vívidas (eca) e quase que não aceito que nunca houve um batom borrado entre nós. porque poucos foram nossos encontros longe das nossas canecas de café. certos-nossos-dias eu registrei em movimento; lembrei que você muito me procurou em ângulos perfeitos; eu saio borrada; em paisagens contemporâneas; eu saio borrada. existimos em tantas fumaças quentes de café ruim. em contraponto do seu nome, nunca formamos uma borra em movimento. uma colherzinha de café mexendo: não fomos. acho que tenho certeza que nunca. a única coisa borrada sobre nós vive em minha cabeça. que bom. pelo menos isso. ou sei lá. na borra de café eu duvido que tenha sei lás. deveria eu dar uma chance ao pó?

10 thoughts on “talvez tudo isso seja coisa de maconheira

  1. que coisa de louco amo muito tudo que você escreve porque apesar de eu não entender nada você aparentemente entende tudo.

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  2. Sei lá é de um jeito muito doido que da pra te sentir do lado de cá. e acho que no borrão do pó de café também cabe um “sei lá”, não da pra ter graça nas coisas se bem de vez em quando a gente não se perde das nossas certezas.

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  3. “aí foi que percebi que amei tão estática.” caralho, minha parceira. 🤧

    ainda bem que amor é tipo fumaça de café: uma vez sentido e vivido permanece por aí, eternamente flutuando e cumprindo sua função de transformar. mas, talvez tudo isso seja coisa de maconheira.

    você é top, nalü. que bom ser contemporânea sua e poder te ler ao vivaço.

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