há oito anos não te escrevo

não que antes dos oito anos que não te escrevi eu tenha te escrito alguma coisa. não é como se eu existisse em adjetivos recheados de amoras antes de te conhecer. não é como se eu existisse antes de uma carta. escrevia sujeitos errados e nenhum de todos os predicados me serviu de poesia antes-do-início-dos-oito-anos que te vejo passar por aí. oito anos e aqui estou pensando em cássia eller: releia a frase anterior agora no tom dela. veja que nada tem a ver o amor com a existência. talvez tenha a ver com lembrar-e-saber direitinho, a vibração da voz de alguém e-o-que-te-causa. até hoje me arrepia seu som de oi-tudo-bem-prazer. por oito anos, a persistência fez-se foragida do dicionário só pra que pudéssemos (como você escreve em carta-desenho pra mim), ser agente: junto. juntas. a paixão é a certeza de que as palavras mais bonitas do português moram pertinho da minha língua na sua. a propriedade em afirmação de qualquer coisa, até o sabor do biscoito preferido, é paixão. detesto. mas apaixonar-se novamente é fazer as pazes com a certeza. eu acho. nada precisa ser tão mais oito do que é ou menos oitenta do que será. em matéria de curiosidade, tudo que por nós foi inventado, vive longe do espectro hiper e hipo. naquele segundo onde nossa criatividade paira pela fumaça no quarto, não há extremos: atingimos o equilíbrio perfeito entre meu joelho e o seu. a paixão também mora num pâncreas desgovernado entre doce e amargo: você, serena e brava, abraçando minhas histórias sem saber. sem eu saber. e como poderia? se cinco desses oito anos eu estive me encontrando em bocas outras (bem outras) que inclusive compartilhamos? como poderia, se quase três do que restou dos anos, eu estive em um lindo-eterno-por-enquanto, há quilômetros da sua cara em minhas costas? cara que hoje quase que rasga de sorriso rompante, quando diz que eu tenho cheiro de paz e o potencial de um furacão. pois você tem cheiro de vida, eu respondo. vida que por oito anos, sem saber, eu quis. que em todas as cozinhas que entrei te esperei chegar pra agarrar minha cintura e beijar a orelha que tanto te ama ouvir dizer o que quiser. ainda te espero assim em frases longas ininterruptas do jeito que eu gosto tudo corrido sem vírgula pois apaixonados só descrevem pausas se a dança for propositalmente lenta. por oito anos acordada ou sonhando, desejei você. mesmo sem seu endereço, sem nome, sem DNA, sem doce de uva, sem seu fascínio por velocidade, mesmo antes de aprender oração subordinada: o que eu escrevia pedia teus detalhes e eu já sabia todos. tem sido você, desde que fez-se necessária a fiscalização do falar sobre um coração ardido. você, remendada, por oito anos. eu linha e agulha. nós, cicatrizes e colcha de retalhos afetivos. nossos gritos de liberdade se encontraram madrugada a dentro, com cheiro de jaqueta de couro e pairando a avenida vazia. nossos braços abriram contra o vento e a cidade derreteu enquanto passamos. nossas gargantas acordaram a vizinhança com declarações de amor eterno. e como não? se ajeita na cama que te quero de propósito. oito é o infinito deitado que agente somos. nunca mais eu levanto.

OBS: de nada vale esse texto. que matemática eu não sei e acabo de descobrir que na verdade fazem nove anos. merda.

6 thoughts on “há oito anos não te escrevo

  1. nalu você é perfeita, isso foi poesia, obrigada por ter feito esses trechos com essa energia que salvou meu dia. Tenho 15 anos e nunca soube descrever o que é amor, quando me perguntarem vou mostrar trechos dessa sua escritura.

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