o morro dos ventos insustentáveis

fico às vezes pensando no final
dos livros que eu li pela metade
como não pretendo morrer de agonia
e sim de tristeza
mesmo que não tenha sentido
linear algum
e que fosse o tempo
diferente ou outro
eu invento

imagina Heathcliff e Catherine
a solução do desenrolar para eles era
subitamente estamos em dois mil e vinte um
o morro dos ventos uivantes agora virou
furo bombástico de um condomínio de luxo
a história e a tragédia e a narrativa
torna-se viral no twitter
sobe-se uma hashtag
todo mundo desesperado no zap da família
pronto e logo a permissão e empatia e o aval
já chega de drama


queria ter escolhido ler
pela metade os livros que eu li até o final
Tereza e Tomas e Sabina e Franz
um dia vocês todos me pagam
por viver o resto da minha vida
pensando sobre tanta coisa
pesando sobre tanta coisa
a diferença sútil sugerindo
discrepâncias como as
duas frases anteriores
se a lei é do retorno
porque não voltas
minha querida Tereza

finjo que sofro menos
das coisas que não terminam
do que das que com certeza sim
mesmo que o com certeza sim
seja também invenção ridícula
do destino que pula cercas farpadas

e o destino é uma mulher
que só existe em minha cabeça
eu invento tudo até o futuro que é hoje
assim que arrumo os finais distópicos
dois pontos
dançando no ritmo da freeway que corta
uivando em meu quarto de madrugada
a melodia da insustentável frase
do último verso de qualquer coisa viva
ou morta

apenas a volta do emo poderá salvar o brasil

a princípio a criatura curtia rock brasileiro. só mudou depois. tinha opiniões quase bem formadas sobre a política estadunidense. um argumentador mezzo criativo. obedecia mãe mas pai não muito. só porque ela o deixava colar adesivos na janela do apartamento alugado em são paulo. o pai -que era com certeza médico porque o garoto mal tinha marcas no joelho- gostava de janelas limpas que assim é mais fácil vigiar a carla que mora no apartamento cinco do outro lado da rua. na falta de marcas vermelhas encontrou no boletim uma vingança justa. depois do divórcio ficou em recuperação todo ano. não ligava pra geografia e história e achava português um saco. a professora -que tinha a bunda maior do que a cara- -em suas palavras- era o tema de seus sonhos. só se interessou pelo colégio quando no último ano do ensino médio a mãe serviu fígado e disse que era bife. sentiu-se enganado e traído e finalmente inspirado a sair de casa cedo. chorando pensava que há algo de errado com o estado civil do brasil ou da mãe ou do pai ou da carla. dramático porque na comunidade do orkut todos eram. por uma questão de afinidade. um dia pegou um cruzeiro da coleção do avô e vendeu pra pagar o cinema e a comida da primeira namorada que conheceu no orkontro. de tanto desespero pegou emprestado até os pesos que o avô tinha guardado de uma viagem ao uruguai em mil-novecentos-e-não-interessa. tremeu explicando ao atendente do mcdonalds que tinha confundido as notas porque acabara de chegar de viagem com seus pais que eram muito bem casados. como aquele docinho de casamento que parece uma pamonha enrol– foi interrompido pela mão da menina envergonhada. comprou um violão depois do término. e terminou porque em 2009 não era legal ser feliz. legal era pintar o cabelo cor de my chemical romance e o cinto do pete wentz. muito caráter foi formado por quem soube interpretar o verdadeiro conceito de ser triste propositalmente. o garoto continuou colecionando emprestado os cruzeiros do avô e contou pra Dulce Safadeenha que era sua melhor amiga do fake que no futuro os trocaria por muitos dinheiros porque valeria muitos dinheiros. Dulce gostava dele porque o achava rebelde num tom bem mexicano. esse garoto insuportável comprou guitarra com dinheiro da chantagem que fez pro pai agora ausente porque carla fez um bebê de oito meses do nada. compunha solos que jurava serem originais antes de dormir. eram na verdade plágio do panic! at the disco que era a única forma de usar o ponto de exclamação. a tal da professora com a bunda maior que a cara chamou a mãe no colégio e disse que desse jeito não dava mais. a mãe perguntou que jeito é esse e a professora disse que a escola não aceita a tribo emo ainda mais se for repetente. depois que foi expulso da escola deixou o emo de lado e foi aí que veio a primeira crise de existência. até comprou uma calça amarela mas se juntou com uma galera esquisita que passou a criticar todas as formas de opressão. como o imposto. nessa história de interesse por cruzeiros se sentiu acolhido. logo mais já amarrava o suéter no pescoço no primeiro período de administração. secretamente escreveu umas três músicas sobre a noite que fodeu pela primeira vez. porque continuou ignorando a geografia teve muita dificuldade em achar o caminho até os meridianos do corpo alheio. e foi assim até o dia antes da formatura quando arrancou os adesivos na janela porque a menina disse que não gozava porque ficava distraída olhando pro gerard way no vidro. uns meses depois de aprender a usar o canudo -biológico e acadêmico- subiu e desceu as janelas do msn em busca de alguém que tivesse tanto medo quanto ele. medo do rumo que o brasil tomava. o avô morreu e ele levou pra uma viagem inesperada uma mochila que só tinha duas cuecas. a mãe confusa. o pai largou o plantão. os dois passaram uma noite inteira sentados em seus respectivos sofás. até que a televisão da carla mostrou o garoto de relance que ela jurou. passou atrás de um repórter que anunciava uma confusão no planalto. pelo menos no brasil ele ainda estava. não demorou pra Dulce Safadeenha que na verdade chamava Marcela bater na porta da casa da mãe do figurante de protesto televisionado. disse que estava grávida de um filho que se chamaria gerard e no embalo do anúncio contou que sabia onde ele estava até uns dias atrás: brasília. e se foi quando ouviu o resultado positivo. Dulce se mudou pra lá. pra casa dos adesivos. não houve sinal nem interesse pelo resto das cuecas durante um ano. o primeiro sinal de vida que deu foi no facebook com a frase o gigante acordou. a Dulce Safadeenha e gerard e os pais e a professora da bunda grande assistiram pela televisão e pelas redes sociais o garoto gritar de cima de uma espécie de trio elétrico. com uma blusa do brasil. defendendo a família tradicional. não sei de quem. esperava-se muita coisa do garoto que achava português um saco e ignorava geografia e história. mas nem nos piores pesadelos alguém imaginou que o garoto que tinha tanto potencial pra destruir a própria vida de formas outras já que; cursou administração; tinha a opção de assumir um filho gerard; torcia pro palmeiras; poderia ter escolhido viver de música; foi escolher logo o movimento brasil livre. esse interesse do jovem pelo liberalismo é a consequência dos danos causados pelo fim do emo. ele que não soube encontrar seu caminho até a vida amargurada do café gelado num apartamento com chão de taco. resolveu culpar o estado pela sua incapacidade de sustentar questões existenciais. o fim da fresno foi pesado demais. eu não gostaria de contar como anda a criatura em tempos de dois mil e vinte um. mas deixo um apelo. emos: uni-vos a fim de voltar a chorar deliberadamente porém debaixo de uma franja. tinha um charme no propósito. talvez precisemos disso.

o alongamento da expressão das minhas ideias: uma busca

eu deveria escrever um romance ou uma novela ou alguma coisa com capítulos organizados e devidamente revisados por horas. outro dia vi um menino que muito feliz disse que faltavam apenas duas mil palavras a serem revistas antes de publicar um novo livro. achei chique. aí fiquei pensando. eu deveria escrever um romance ou uma novela ou alguma coisa com capítulos organizados até que me vicie os olhos. queria eu inventar personagens. não acho que sou capaz de inventar várias pessoas. na verdade é mentira. é porque todas que inventei já estou usando. ou sou parcial ou sou insuportável. tenho medo do meio das histórias longas que poderia escrever. ainda sim escrevo teatro e escrevo filme. que aí não precisa muito de tanto meio nem tanto final nem tanto começo. me interessam os pedaços. um momento. aqueles que podem existir para um caralho em um dado respiro. pode ver que minhas histórias são assim. por isso que talvez ser fã de boyhood seja uma grande falha da construção dessa eu de hoje ao escrever isso. gosto do respiro visual bonito que é uma sobrancelha que fala tanto quando numa tela gigante. gosto de escrever a luz que entra quando acende um personagem no palco. gosto do texto meu que é cuspido e falado e respirado na propriedade de outra pessoa. é bom me ver sem estar me olhando. mas ainda não tenho o alinhamento vertebral e cerebral e emocional e nem a cadeira necessária para o comprometimento com um mundo outro quase-meu só que ao-mesmo-tempo-não. um dia eu acho que tenho certeza que vou beber a comemoração do último ponto da última frase da última página do último dos vários romances e novelas e as coisas com capítulos virginianos que escrevi durante anos muitos. mas para que isso seja possível eu preciso parar de usar o possível conteúdo em minha própria vida. principalmente antes de deitar a cabeça na fronha de cetim que é pra não amassar os cachos. um pensamento solto: imagina se no sonho eu apareço com cabelo sem definição. outro pensamento: que veio antes desse texto: que foi o que nos trouxe até aqui: existem histórias em minha cabeça precisando existir noutro momento que não quando estou lavando louça. certas coisas precisam ser re-bobinadas e vividas de outra maneira. mas por enquanto toda terça um troço. e poesia porque chega primeiro e eu não tenho nada a ver com isso. segue o melhor fim que encontrei: que resolvam-se os gêneros sozinhos em um grande aulão de grupo dentro da minha mente e que bebam uma água e façam essa yoga com uma legging que não escorregue o pé quando apoiado na coxa. alonguem-se.

Bueno, bom, good

morning, mañana, dia! Minutos depois yo derrubo café na sua t-shirt e segundos despues disso, em meu braço. Você lambe e diz que é assim que ficaremos rich e hacer millions: uno coffee que tem gosto de mim. Eu corrijo: café que tastes like amor. Todas as vezes que o sol shines en su cara, nos perdoo por não ter colocado as cortinas yet. O reflexo da janela em nossas piernas é um recado dos céus de que somos reales. Talves lo que eu mais peça na vida sejam sinais divinos e music. Nesse dia, à tarde, eu pedi que a gente ficasse numa good. Meio Djavan num reggaeton, mas ainda curtindo as músicas mais tristes do Bon Iver. Brigamos muito na última miercoles. Aliás, todos los dias do mês passado, em all idiomas. Planejo que hoje, quando chegar à casa, direi buenas noches. Porque você sabe que gosto de dizer good night em suas orejas depois que digo boa noite between suas pernas. Durmo ansiosa pelo next day. Pela próxima chance de te ouvir dizer -it’s time now- e eu responder que no quiero trabajar e te assistir trazer o coffee ruim, que quem sabe, who knows, eu derrube de novo, pra você me lamber e criar a fórmula do te quiero, te amo e I love you. Não precisamos ficar rich, nosotras temos é que parar com as fights.

um ensaio sobre o pomo da discórdia

quando a gente corre atrás de uma borboleta será que ela sabe. será que a borboleta olha os prédios borrados dançando na velocidade das asas e ouve as buzinas dos carros e dos ônibus protestando contra a gente correndo atrás de uma borboleta. quando a gente escolhe um pão de sal com critérios de gosto e formato e cor e tamanho será que os outros irmãos-pão questionam sua sexualidade. será que os miolos do pão são mesmo tão iguais como dizem que somos por dentro. acho que seria bobeira achar que acho que sim. será que o sofá tem uma bunda preferida. será que os ácaros fazem festa de aniversário pros farelos que caem naquele buraco que tem entre duas almofadas de um sofá sem capa. será que quando a vó ou a mãe ou o pai obsessivo encapa o sofá ele se sente sufocado. com quantos serás e esfregões desesperados nos olhos e no rosto se faz uma neurótica. será que quando os olhos encontram o shampoo eles ardem de paixão. será que quem inventou o shampoo se inspirou no sabonete. será que eu começar uma frase perguntando sem o será ainda será uma pergunta. querido chico já estamos todos prontos para saber o será que será. quanto mais análise eu faço menos ponto de interrogação eu quero usar no que escrevo. parece que eles andam ocupados em outras aventuras do meu cérebro programados para abrir algumas vezes por semana e em certas linhas do metrô e em certos olhares vagos. mas pode ser que um dia eu escreva com vírgula e pontuação correta e esteja tudo bem. não é motivo para susto. quem será que levou o primeiro susto do mundo. se eu acreditasse na bíblia a resposta automática para mim seria adão quando viu a própria costela sair voando do nada e virar um pedaço humano outro inerente à si porém também não. imagina a doideira. se eu acreditasse em fadas e duendes e essas coisas da floresta da tijuca e vargem grande eu diria que foi o primeiro humano que comeu um cogumelo que deu onda. imagina a doideira. se por acaso eu fosse crente de liberalismo eu diria que foi quando os caras se depararam com a mão invisível. sei lá como. porque é invisível. mas eles viram. aí tem que ter muita fé mesmo. não sou capaz. imagina a doideira. agora o susto susto mesmo -mesmo que não o primeiro do mundo- deve ter levado lacan. quando viu um inconsciente igualzinho a um idioma. imagina a doidera. tomara que meu inconsciente tenha uma boa dicção.