como recortar coisas e outros desafios

segunda dia oito de março
dia da mulher mas não quero
falar sobre isso porque
estou cansada
e como mulher e cansada
e sendo hoje meu dia
eu decido nada
com muito orgulho

você lê isso terça feira
ou seja no futuro de hoje
hoje que pra mim é segunda
mas pra você hoje é hoje
que é terça e não sei se tá frio
ou se tá calor porque ainda não cheguei
você que já ta aí: eu to aí também?

well well well ora ora ora
vou falar de ontem (o meu ontem)
e que sou péssima
em cortar coisas em linhas retas
fui cortar o plástico do salame
e tive que repetir o processo
exatamente quatro vezes até
conseguir servir de companhia
pro vinho com Fabiana

todo mundo lá na sala de estar
o salame e o vinho e o mistério do mundo
e a fome dele e plantas que brilham e palavras soltas
em e-mail e os futuros livros grossos
e o parkear das línguas nas angry traduções

follow esse papo de domingo à noite
brindando a audácia de não saber crase:
a tradução de connecticut pra mim
é conecte-se com o recorte
e aqui estão os pedaços fragmentados
que lá foram devidamente dançados
até que sumissem em ritmo (ou quase)
agora na tradução pro inglês
de barões da pisadinha

recorte os olhos famintos
copie e cole e salve junto
na pasta de documentos
onde mora o papel rasgado que viajou
o trânsito e a fila e os mares e nove anos
dentro de um envelope importante
pra dizer que ama muito
very muito mas
pau no seu cu

processo criativo é
descobrir se a receita
pra fome dos olhos
é assistir o suspiro que dá
o conforto quando
alceu diz bobo e a gente sabe
que tem que dizer bola e ele balão
e a gente são joão
esse conforto que suspira
é a tecnologia que me interessa
pois veja bem (no outro verso)

se quando confortável há
possibilidade de respiração
ao invés da produção de culpa
e o triatlo emocional que é
nadar e pedalar e odiar que
pra chegar no final tem que
pisar no chão
se quando confortável há
a perda da memória bruta
do que é não ser feliz
aí fudeu
tecnologicamente fudeu

o pior vício é o de sentir
o sonho da nicotina
é interromper o momento
em que se deturpa o arrepio
pra que não haja dúvidas
caso a resposta seja:
estou me mudando
pro seu cangote
de mala e tudo
por favor libere espaço

gosto de gente mas mais ainda
das mãos das gentes que fazem
coisas com um tato apaixonado
do toque de quem ama com as mãos
eu tomo conta
dos movimentos manuais alheios
melhor do que sei que dia é amanhã

coisas que eu amo
em vocês-gente-do-toque
a mão comendo pipoca
a mão dirigindo
a mão cozinhando
a mão explicando
a mão dizendo tchau
que pareceu um oi
a mão que revela
segredos que o resto do
corpo não deu conta
uma mão que acende
incenso e isqueiro e pescoços
assinado: vênus em virgem
com a participação especial
de mercúrio em virgem

perguntas que me faço sobre vocês
gente-beijo-de-sorriso
por que isso tastes like um momento
guardado pra depois
e quando é o after
pois me convide pro evento
do beijo-mordida que ultrapassa
a vontade de ser saudade proposital
e a versão original de johnny cash
sendo que one é o caralho
prefira two and three and etc
pra ser efervescente-porém-não-efêmero
conclusão: fique mais

moram dentro de uma garrafa de vinho
muitos pequenos e grandes danos
por isso tô te dano uma dica
preste atenção no privilégio: tô te dano

seguinte
sou um corpo cuidado frágil
e contra indicado em caso
de suspeita de dengo
que precisa sempre de um estrago
como um recorte torto de qualquer coisa
e esse é um

sabe quando só pelo título / você já entende tudo / então / tipo

sorvete com batata frita / tipo quando o cara coloca mais chocolate no milk-shake do que deveria / quando o caixa que já sabe que tipo / você não quer o recibo / aí ele mesmo joga fora / então / tipo quando você acha que vai falar tudo errado / e numa reviravolta / você se sente o tarantino / aí conta uma história sem ordem / mas que tipo / faz sentido / então / sabe quando tipo / a gente espirra depois de franzir a cara toda até parecer que teve um orgasmo / sabe / tipo ter um orgasmo sem precisar sustentar uma indústria podre / então / tipo quando você chega na estação e o metrô tá bem ali / sabe chegar na hora exata / mesmo saindo de casa atrasado / tipo / quando aquele último pedaço de papel higiênico é suficiente / puts / tipo quando você faz cocô / mas a bunda não suja / sensacional / quando você abre a geladeira / e tem coisa pra comer / tipo / quando essa coisa é pizza / no café da manhã / então / tipo quando a campainha é você / sabe / você / tipo / você / sabe / você é tipo todos os pequenos momentos de prazer / que são maiores e melhores / do que tipo / muita coisa / que a gente acha que é felicidade / sabe / e mesmo que não aconteçam toda hora / esses tipos momentos de prazer / você sim acontece / tipo / você é um acontecimento repentino de felicidade pouca que é na verdade muita / sabe / então tipo / eu sou muito grata / por você acontecer / tanto / é muito bom / porque tipo / com você / meu vício é te explicar / sabe / que te amo em tantos tipos / formas / idiomas / o quanto você / seu nome / suas gírias / suas não maneiras / de fazer sentido / o quanto isso tudo / que eu sinto / é tipo / terminar um texto com uma frase romântica / então / sabe / você é essa frase / que deixa tudo / finalmente poético / mas que eu não escrevo / sabe / então / é tipo isso / meu vício de linguagem / favorito / é você / meu tipo / meu sabe / meu então / meu pois é / a repetição de você / o amor

as colheres e o papel higiênico

em algum lugar não tão distante quanto o outro quarto e nem tão perto quanto outra dimensão, começa o treinamento do tratamento de princesas. se arrumam em fileiras todas as mocinhas e mocinhos da vila que gostariam de trabalhar em prol do conforto da realeza. e a realeza é muito exigente: esse é um trabalho dificílimo. requer muito esforço e há boatos de quem morreu disso. dizem as amargas línguas pelos becos escuros, que há quem apodreça por dentro ao realizar essas tais tarefas absurdas. sabe-se que doar-se por completo é perigoso. a princesa, por exemplo, exige que quando chegue de uma viagem longa, encontre pelo menos um rolo de papel higiênico. veja bem, os mentores deixam claro que ela não espera encontrar uma geladeira cheia, nem toalhas limpas, nem os corredores perfumados. até porque, pensar que a princesa chega com fome e com vontade de tomar banho é muito difícil imaginar. quase que não passa pela nossa cabeça que depois de dez horas de viagem alguém necessite de um banho. não seriam malvados, os professores, a ponto de cobrar consideração tamanha de seus alunos. mas o xixi… isso é inevitável. gente precisa ir ao banheiro. princesa é gente. coitadas, princesa também caga! quem diria! esse é o aprendizado número um do primeiro dia e único dia de aula. sobre como manter o castelo, que tem mesmo o chão desnivelado, que tem problemas com ratos, que é mal pintado, não respeita uma regra de feng shui, onde tapete de banheiro nem pensar, sabonete líquido também não se cobra (existem duas barras que é para serem dividias entre as visitas e a realeza), é melhor manter assim. é porque quem paga é a plebe e seus impostos. ai da princesa se reclamar das condições de sua torre! nessa vila não tão distante quanto dois trens e nem tão perto quanto outra boca ressecada-sem-beijo, não deveria haver realeza, de fato. há muito tempo que são falidos. há muito que são sustentados pela mínima compaixão daqueles que tem um respeitinho bonitinho pela sua história. a princesa, que veste trapos sobrepostos de verão durante o inverno, tem sim algumas coisas. dentre elas um jogo de colheres, garfos e facas que ganhou como permuta no antigo trabalho. princesa é gente. gente às vezes faz publi. princesas também tem sonho de blogueira! quem diria! de volta ao treinamento, deixa-se claro que uma das exigências da realeza é, caso haja problemas com rato e eles façam morada na gaveta de talheres, que arrumem uma forma de substituí-los! ainda que seja um de cada. a princesa espera ter um garfo, uma faca e uma colher que seja. não seria cobrado aos alunos -moços e moças da vila- que de fato comprassem um jogo inteiro. afinal, a loja em que todos os itens custam uma nota da moeda local, se encontra há duas ruas do castelo. andar duas ruas é inimaginável para quem se propõe ao tratamento de realeza. aprende-se também que geneticamente a coluna de princesas é muito frágil e dolorida, mas não há humanidade que possa resolver. é dito o fato: pedir ajuda para coisas pesadas não é direito da princesa, não nessa vila. o treinamento dura um dia. ao final, sobra apenas uma moça. moça essa que, depois de escolhida, ganhou por meses o direito moradia no castelo enquanto a princesa viaja. mas preferiu fazer tudo à distância e deixou que amigos desfrutassem dos travesseiros velhos e da cama quebrada. era esquisito trabalhar no tratamento da realeza, sem realeza presente. a vila inteira concordou. por isso, a moça, uns dias antes do retorno da princesa, até que foi ao castelo jogar fora tudo que viu pela frente. tudo que ratos poderiam ter tocado. sua família, arqui inimiga das bobagens monárquicas, ficou muito impressionada e orgulhosa com o trabalho prestativo de sua filha rebelde, que resolveu se meter com a princesa. muito certa de que é a melhor no que faz, esvaziou a geladeira e a dispensa e os armários: colocou tudo em sacos de lixo. no tratamento de princesa isso não é incluso, mas a moça é mesmo boa pessoa. contra todos os flocos de neve vários que cairiam no dia dezenove de fevereiro, é esse o escolhido grande dia em que a princesa retornaria ao seu castelo. há anos a realeza não tem orçamento pra carruagem ou oportunidades de amizades não-burguesas, quem paga seu retorno é a plebe, portanto princesa não reclama. todos seus amigos estariam trabalhando. aí a princesa levanta suas malas sob a neve e contra escadarias. que ninguém tenha pena da realeza! neste conto é proibido quaisquer sentimentos de compaixão. essa princesa há muito tempo perdeu seus direitos de ser compreendida. deixe que ela junte seus restos de monarquia falida e lute toda engraçadinha, com todas suas unhas cortadas, por um rolo de papel higiênico e seu jogo de talheres. finalmente passou pela porta gigante e empoeirada, depois de empurra-la com todos os seus ossinhos vertebrais. não havia papel higiênico. abriu a gaveta. não havia mais colheres. mas lhe restaram os pontiagudos garfos e facas. não entendemos o porquê. princesa também é gente. nem sempre gente tem respostas. mas tem improviso. a princesa usou papéis de carta e desde então, resiste com garfos e facas, a fome de continuar existindo.

o que tem em comum um relógio e a barraquinha de cachorro quente

do leme pro flamengo
são dezessete minutos
mesmo num dia de trânsito e chuva 
é quinta feira e do leme pro flamengo 
leva dezessete minutos

poucas coisas na vida eu sei a hora
eu não conto números eu conto pausas
conto árvores até chegar ao prédio
me pergunto quantos porteiros tem
no rio de janeiro

da nova casa no brooklyn 
até o antigo trabalho
são trinta e um minutos
mesmo num dia de usar cueca no metrô
é segunda feira e do brooklyn até manhattan
leva trinta e um minutos

muitas coisas na vida eu sei o endereço 
mas não olho os números da rua
conto barraquinhas de cachorro quente
até chegar ao prédio
vou me perguntando
quantos doormen será que tem 
em nova iorque

do leme pro brooklyn são dez horas
com escala em são paulo são talvez quatorze
com escala em miami são talvez doze

dentro do avião não existe o tempo do relógio 
tudo ali parece perdido entre o passado
e presente e de futuro só pasta or chicken

nunca sei se estou in the airplane 
ou on the airplane 
sei que tomo conta da geografia 
e observo o avião digital atravessar 
o amazonas na tela e penso
nossa como é grande o brasil e
nossa são seis horas voando sob o brasil 
e o brasil não acaba nunca
acaba mesmo não
brasil

descubro meu corpo muito mais vivo
depois de dez horas sentada numa poltrona
descubro que minha mandíbula deve ser torta
porque dependendo da posição do dedo
alinhado com o dente prestes a roer unha 
eu acabo mordendo e prendendo a bochecha
e dói bem mais do que descobrir que o café
da manhã que o aeromoço serviu é cream cracker
com geleia quando se odeia geleia
odeio geleia

talvez se eu tivesse um paladar mais nômade
poderia explorar melhor o cardápio do japonês
que eu gosto lá na puta que pariu do queens
talvez se eu soubesse os minutos que leva
pra ir de casa até lá eu acharia menos puta que pariu
e mais num-pulo-a-gente-tá-lá 

o queens é um buraco negro no espaço tempo
e é praticamente impossível dizer exatamente
quantos minutos leva pra chegar até
qualquer avenida grega de restaurantes brasileiros

quando se odeia geleia a vida é mais difícil 
principalmente pra quem resolve morar 
na terra do peanut butter n jelly for breakfast
and jelly in the panqueca que é doce only
mas com certeza mais difícil é a vida 
do estadunidense que nunca comeu uma panqueca
de carne 

do meu quarto até o banheiro eram alguns
barulhos do meu pé pisando forte na madeira
e Girannette reclamava que eu pisava alto
que os móveis e os vizinhos sabiam todos
os passos que eu dava dentro de casa 
era um absurdo mas também a minha marca: 
the desfile triunfal do xixi da madrugada 

não gosto de piso branco porque gosto de andar
descalça e sem roupa e me parece que o chão de taco
antes de ser moda era também a maneira correta
de se construir um apartamento com sala de estar decente
não ando de chinelo e nem de pantufa que minha vó me deu
aliás me desculpa vó

eu só ando de meia no corredor do avião 
mas só porque ali dentro todo mundo tem
permissão de ser tudo aquilo que nunca seria
em terra firme como por exemplo
fã de filme do adam slander que desfruta
de geleia que é a própria des-frutação 
e uma saudosista das medidas de tempo perdidas
entre um bairro e outro do rio de janeiro

esse título é fruto de uma conversa com Maria Eduarda e Rebeca.

há oito anos não te escrevo

não que antes dos oito anos que não te escrevi eu tenha te escrito alguma coisa. não é como se eu existisse em adjetivos recheados de amoras antes de te conhecer. não é como se eu existisse antes de uma carta. escrevia sujeitos errados e nenhum de todos os predicados me serviu de poesia antes-do-início-dos-oito-anos que te vejo passar por aí. oito anos e aqui estou pensando em cássia eller: releia a frase anterior agora no tom dela. veja que nada tem a ver o amor com a existência. talvez tenha a ver com lembrar-e-saber direitinho, a vibração da voz de alguém e-o-que-te-causa. até hoje me arrepia seu som de oi-tudo-bem-prazer. por oito anos, a persistência fez-se foragida do dicionário só pra que pudéssemos (como você escreve em carta-desenho pra mim), ser agente: junto. juntas. a paixão é a certeza de que as palavras mais bonitas do português moram pertinho da minha língua na sua. a propriedade em afirmação de qualquer coisa, até o sabor do biscoito preferido, é paixão. detesto. mas apaixonar-se novamente é fazer as pazes com a certeza. eu acho. nada precisa ser tão mais oito do que é ou menos oitenta do que será. em matéria de curiosidade, tudo que por nós foi inventado, vive longe do espectro hiper e hipo. naquele segundo onde nossa criatividade paira pela fumaça no quarto, não há extremos: atingimos o equilíbrio perfeito entre meu joelho e o seu. a paixão também mora num pâncreas desgovernado entre doce e amargo: você, serena e brava, abraçando minhas histórias sem saber. sem eu saber. e como poderia? se cinco desses oito anos eu estive me encontrando em bocas outras (bem outras) que inclusive compartilhamos? como poderia, se quase três do que restou dos anos, eu estive em um lindo-eterno-por-enquanto, há quilômetros da sua cara em minhas costas? cara que hoje quase que rasga de sorriso rompante, quando diz que eu tenho cheiro de paz e o potencial de um furacão. pois você tem cheiro de vida, eu respondo. vida que por oito anos, sem saber, eu quis. que em todas as cozinhas que entrei te esperei chegar pra agarrar minha cintura e beijar a orelha que tanto te ama ouvir dizer o que quiser. ainda te espero assim em frases longas ininterruptas do jeito que eu gosto tudo corrido sem vírgula pois apaixonados só descrevem pausas se a dança for propositalmente lenta. por oito anos acordada ou sonhando, desejei você. mesmo sem seu endereço, sem nome, sem DNA, sem doce de uva, sem seu fascínio por velocidade, mesmo antes de aprender oração subordinada: o que eu escrevia pedia teus detalhes e eu já sabia todos. tem sido você, desde que fez-se necessária a fiscalização do falar sobre um coração ardido. você, remendada, por oito anos. eu linha e agulha. nós, cicatrizes e colcha de retalhos afetivos. nossos gritos de liberdade se encontraram madrugada a dentro, com cheiro de jaqueta de couro e pairando a avenida vazia. nossos braços abriram contra o vento e a cidade derreteu enquanto passamos. nossas gargantas acordaram a vizinhança com declarações de amor eterno. e como não? se ajeita na cama que te quero de propósito. oito é o infinito deitado que agente somos. nunca mais eu levanto.

OBS: de nada vale esse texto. que matemática eu não sei e acabo de descobrir que na verdade fazem nove anos. merda.