pensamentos escorrendo na velocidade do sangue

bom eu odeio usar calcinha principalmente quando a calça é confortável o suficiente pois bem hoje resolvi exercer o free the xoxota e menstruei no consultório da dentista que me contou que era anti vacina enquanto fazia o molde de clareamento de girannette que quase vomitou na hora e não pude controlar minha sobrancelha dançando indignada na minha cara parece que inclusive uma gota da menstruação desceu ali ainda mais forte como uma auto defesa do corpo um pouco cansado de ser mulher e brasileira e portadora de duas orelhas que infelizmente escutam coisas muito erradas como por exemplo a música da luiza sonsa que ela canta como é me ver com milhões e eu só consigo escutar uma amiga com milhões e pra mim faz sim todo o sentido porque muito provavelmente milionário só anda com milionário que é uma prática que inclusive eu sou completamente contra digo essa a prática de acumulação de muitos dinheiros a não ser que você seja uma pessoa que eu gosto e vi trabalhar bastante dentro desse sistema nesse caso talvez eu exerça de algumas hipocrisias a fim de ficar feliz por você pois eu genuinamente sou mais feliz com a felicidade do outro do que com a minha porque a minha eu fico sempre pensando opa mas peraí que daqui a pouco vem bomba hein e por falar de bomba hein hoje eu vi um bocado de gente discutindo no tuíter antes mesmo de bater meio dia e pensei caramba a pior hora pra se estressar é de manhã porque ainda estamos nos recuperando do trauma que é ter acordado mais um dia pra fazer coisas que muito provavelmente a gente não faria se por exemplo no dia que nossos progenitores resolveram transar existisse sei lá qualquer impedimento qualquer mesmo até um do flamengo mas que fosse suficiente pra evitar certos estragos como nosso nascimento e por isso que eu penso cara como é que pode que duas pessoas transaram um dia e agora eu tenho que trabalhar e fazer análise o resto da vida porque outras duas pessoas transaram e nasceu freud que começou a pensar um monte de bagulhos e também cheirar outros e do nada tudo fez muito sentido e de repente a gente tem todo um trabalho pra resolver com as pessoas que transaram-a-gente enfim não quero me estender muito nessa exata questão pois estou nesse momento com bastante tendinite que ataca sempre que meu pulso fica muito distraído em certas posições ou consequências histéricas outras mas como prometi que não vou entrar na questão da análise vou usar essa parte desse texto preguiçoso e escrito com uma mão só pra dizer que essa é a porra de uma dor chata do caralho e ah um detalhe como minha atadura ficou em nova iorque eu tive que pedir um lenço emprestado pra minha mãe e ela muito virginiana fez uma cara esquisita mas logo pegou o azul pequeno e enrolou na minha mão só que não gostei muito do jeito que ficou aí pedi pra girannette fazer novamente e acabou que também ficou frouxo por isso falei que precisava fazer xixi e desenrolei e amarrei eu mesma e fiquei refletindo caramba eu sou muito metida e também burra pois poderia ter aproveitado a oportunidade pra já tomar um banho só que não dava mais porque tinha acabado de conseguir o nó perfeito e não poderia molhar o lenço virginiano de minha mãe mas logo me toquei que já tinha um cheiro muito forte daquele spray quente&frio que não sei o nome e também nem quero saber já que esta caralha é uma merda e uma grande mentira o que me faz pensar que eu preciso acreditar menos em embalagens porque eu tenho essa coisa de levar muito a sério o que é escrito então se por exemplo na bananada que eu comprei na tijuca diz que não contém açúcar eu vou comer sim umas trinta e pensar caramba eu sou muito controladora da pré diabetes só que já no caminho pra jogar os trinta pacotinhos no lixo lembrarei que provavelmente eu só comi todas elas porque estou sangrando e assim continuarei pelos próximos quatro dias o que é também culpa das pessoas que transaram naquele dia que não teve nenhum impedimento nem mesmo o do flamengo e agora estou aqui escorrendo as palavras tal qual o sangue pelas minhas pernas afinal até agora não fui capaz de colocar uma calcinha porque eu acredito na embalagem do coletor menstrual que diz que não vazará e assim vou vivendo até outras horas

liquidipeiper

lembrei que teve
uma época que era proibido
escrever de caneta e por isso
eu cresci
dando muita importância
para tintas
coisa de adulto
seriedade

a primeira vez que escrevi
de bic em meu diário eu olhava
para página ao lado toda desenhada
de lápis e pensava que pareciam
duas pessoas diferentes
será que foi esse meu primeiro
episódio da dissociação
são perguntas

fazia as palavras como se fosse
segredo e rebeldia e ritual:
para escrever de caneta tinha que ser
na calada da noite sob a frecha de luz
da cortina roxa e depois da prática
(quase) religiosa vieram muitas crises
usar liquidpeiper era derrota maior
do que ralar o joelho na frente de
todo mundo no pátio da escola

eu só consegui me livrar da maldição
de eternidade da caneta depois que
entendi o poder das linhas que a gente traça
saí riscando tudo ou fazendo bolinha em cima
sempre setinhas que indicavam a dança das
coisas pela página e virou até parte do
meu jeito de expressar fisicamente

eu faço rasura até nas conversas
gesticulando e fazendo careta
a língua como borracha natural
e essa coisa da auto-correção
espontânea e muito rápida se
estendeu em vários dos meus varais da vida
um monte ainda estou deixando secar

só não lembro
mesmo com esforço
exatamente quando foi que
decidi que era bonito esse
erro à mostra
afinal fui uma criança
traumatizada esteticamente
e sempre muito perdida
visualmente

até hoje sou uma adulta assim
meio desengonçada estruturalmente
mas me sinto vencedora de todos
os obstáculos do mundo quando alguém
pergunta: quem tem uma caneta
e eu respondo eu tenho
eu tenho uma caneta

eu fui eu tava/se eu for eu vou

não lembro o número do seu apartamento
aperto os olhos e vasculho a memória 
e só sei do casaco amarelo
qual o botão que apertou no elevador
qual qual qual qual
foda-se
aí eu entrei e
aquela ali que eu era
puff nunca mais
nunca mais teve aquela eu
em nenhum lugar e nem elevador 


quando um acontecimento fica guardado
em fragmentos sobra muita fantasia
desde pequena que percebo que
minha mente grava melhor quando quase metade
eu romantizei ou vivi sozinha ou sonhei que vivi
ou queria ter vivido e não é mentira
é verdade e é aí que mora o perigo
bem ali no apartamento que eu
não sei o número é que mora o perigo

aperto os olhos e vasculho a memória
mas só lembro de tirar meu sapato de boneca
pra pisar de pés descalços no chão
da casa do risco
abre parênteses
lembra que eu disse que sou viciada em adrenalina
fecha parênteses

fiquei ensaiando o que vou te dizer
pra parecer que eu nunca nem tchum
mas briguei muito com meus lábios
porque fico achando que ultimamente
minha língua tem enrolado estranha
outro dia tive uma paranóia dessas
fiquei uns bons minutos analisando
do espelhinho do carro
como eu junto as sílabas
enquanto falava qualquer bobagem
parecia que tinha mudado muito
a forma que eu falo
fiquei com medo de ter deixado com você
uma parte do jeito que eu articulo símbolos
era maconha

sóbria; o problema é que eu entro; atravesso
pela porta do desconhecido
sem prestar atenção no número do andar
ou o endereço ou o nome da rua e
toda caótica
abre parênteses 
vasculhei a memória digital 
o famigerado zapzap
descobri que na verdade eu bem
tenho o nome da sua rua
o que acaba com alguns porcentos
dramáticos dessa odisséia
fecha parênteses
quando eu vi eu já fui e eu tava
porque é assim que eu sou
sem contar as
vezes que mesmo sem mim eu tô
impressionante

são quase meia noite e até agora nada

tuesday: descobriu que são doze planetas em terra orbitando contra os desejos aquarianos. around 9pm: “o destino ecoando um menino e uma menina e um cachorro dando sentido e todos eles muito felizes com dinheiro em cima da carta de peixes.” a mulher sábia continuou: “é urano na casa oito.” de imediato um arrepio que vinha da nuca até o umbigo tomou conta da sala e do mal estar. ali os dois -estares- ainda que meio brigados -a sala e o mal- respiravam o tal sonho do gozo. do orgasmo. dos tremeliques. mas não durou muito o devaneio. enquanto isso no nono andar: conversavam as opostas constelações de leão e aquário. cada uma com seu monólogo pronto sobre a vontade de tornar a lua uma pessoa; the moon; moonzito; que será uma criança vinda do futuro e saberá de cor todas as histórias da natureza e da falta dela. contará aos seus amigos sobre a selva de pedras onde viviam suas duas mães quando decidiram dar-lhe a vida em forma próxima e tangível. a fumaça do cigarro leva o som do pedido até às nuvens: pedimos por uma criança que era a lua e para vir ao mundo aos quatros braços de um amor feminino. depois disso muitas perguntas: como será o tempo do universo. em medidas diferentes. claro. óbvio. mas isso não questiono. nem eu. demora. às vezes não. diz que em seis meses o santo resolve. quem acredita que não tem que acreditar em santo que se foda. é. ainda tuesday: assistia de rabo de olho o dobrar das roupas com cuidado. o amor tirando cada etiqueta. aquele barulhinho desgraçado. sexy. analisava o amor da vida organizar o espaço compartilhado e coçava bastante a perna da tatuagem que há anos não sarou e pensava -puta que pariu- oh my god quanta coisa que não fiz. nem farei. do nada um pensamento outro; aquele do fundo da nuca; da parte do cérebro que não se sabe se sente ou se pensa ou se manda comando de siririca; muito conhecido também como paranóia. um que fala das flores. das flores que caíram do deck de cartas de baralho cigano sendo embaralhadas. escapuliram. voaram. vupt. assim. como resposta do vento. uma distração na matrix. a resposta em segundos. as flores como resposta para será que. pois por que não. gostaria de escrever sobre isso.

efemerópteros de sorte e outras maneiras de calcular 2+2

achava que quase que tinha certeza que aquele foi o último dia da existência da coincidência. chegava cada vez mais perto de encostar a boca no destino. preparava a mordida que selasse o contrato da beleza do acaso com a presença física de dois num mesmo espaço sem aleatoriedade. aos poucos congelava-se o passado e na única fumaça que subia ao céu – que naquele dia recusara qualquer sopro sem amor – estava tudo o que já se soube sobre o futuro. eram dois afins em tons diferentes: o sussurro e o grito e de repente tudo combinado. como diálogo de fim de filme que antecede o início da música de crédito que acompanha sua corrida até o banheiro. diálogos que combinam assim: a borboleta só vive dois dias. então quer dizer que ela só vive dois dias. sim. e antes era um lagarto. era. e muda assim desse jeito. é. não posso competir. quem pode. só quem voa. talvez nem quem voe. talvez. depois o silêncio curto. aí fechava os olhos do mundo: agora o arrepio parecia ter combinado o toque e a fala e os dedos com o relógio e os tropeços e o passado. os olhos castanhos foram percebidos com atraso mas abriram-se como chave da caixa onde esconde-se tudo o que nasce às 10:30 no rio de janeiro. os números que são cores. a vida que dessa vez foi gravada na memória em cor de lavanda. já hoje não se sabe mesmo por onde anda a coincidência; mas enfraquece o destino quando perde-se o cheiro; mas as cartas pintam de outros caminhos; mas outros casulos gozam de outras cores; mas apagam-se as luzes ao mesmo tempo em duas cidades diferentes. pensou que contente são as ideias fictícias que se misturam nos registros racionais e vivas seguem sem a menor preocupação com a realidade ou sentido. na verdade são vinte e quatro horas que essa espécie de borboletas efêmeras vivem. gostaria de continuar acreditando que eram quarenta e oito. isso antes de encontrar a sorte nessa descoberta recente. sorte da poesia e não da matemática. quiçá dos amantes. tanta coisa deveria ser sobre medo. coisa estranha é querer explicar. acha a pretensão em ser entendida coisa pequena. de qualquer forma por segurança deseja pensar menos durante o dia sobre seus corpos durante a noite. verbaliza e tropeça nos risos frouxos e diz que é de raiva mas é de carinho. terá material de vitalidade em todas as vírgulas que pretende escrever quando existir coragem de assumir um formato mais claro do desenrolar de palavras. gostaria de repetir poucas coisas que aconteceram. às vezes esquece de seus momentos favoritos. questiona-se por onde andam as histórias engraçadas e quantas das declarações são verdadeiras. quantas outras ouviram e desfrutaram do mesmo vento que bateu na barriga por causa do sorriso nu. por causa dos corredores descobertos de luz mas iluminados de um amor que surgiu não sei da onde. declara guerra à vontade do vôo que perpetua por mais do que se pode; porque só existe metaforicamente; porque só existe se inventarem uma nova forma de calcular o que é único em dois. isso se houver interesse em desafiar a duração que talvez já tenha sido programada. desafiar em específico para-além da escrita. enquanto não acontece pede por duas coisas. que por favor diga qualquer coisa menos que acha lindo. que não permita ser solitário o lugar onde mora o encontro efêmero da sorte com o fim da coincidência. promete absorver a repetição de que tudo dará certo. imagina isso tudo ao som de qualquer sequência de músicas enérgicas com letras melancólicas. da forma mais estúpida e patética e exagerada. não justificará porque opta por não falar de saudade ainda e talvez nunca. ponto de exclamação. ponto de exclamação.