– você age como dona do salão colocando essas cadeiras aí no meio – aaaaiiiii desculpa – desculpa nada você corrija seu erro – ialá tá nervosa ela e já pediu tua comida? – dá o outro pé moça – eu que não vou dar 8 reais num pão – duvido – eu que duvido – aaaaaai doeu esse dedo aí – tá encravado moça – ih unha encravada é foda – diz que hoje em dia opera – no SUS será que opera? – duvido – eu também duvido – outro dia Carolina ficou quatro horas pra ser atendida – no SUS? – no SUS – pra resolver unha encravada? – era joelho torcido – joelho torcido não é emergência que a médica disse vê se pode – deixa eu botar um algodãozinho aqui que já para de sangrar – duvido que o SUS opere unha encravada se o joelho torcido da Carolina eles não resolveram – vai pedir a quentinha? – quentinha eu não quero tô cansada do frango da Fabiana – queria um salmão – mas tú é uma favelada abusada – sou mesmo – ih duvido que na Fabiana tem salmão – se tivesse você compraria? – dependendo do preço eu até pago só que mais de 15 reais numa quentinha eu não dô – nem eu – duvido – duvido – dá o outro pé moça e vai querer óleo ou spray? – o que é melhor? – melhor é resolver no hospital particular – duvido – tô te falando – é o óleo – mentira que melhor é o spray Lucilene não mente pra cliente – Mociara não se intruméte – o que você quiser pode botar mas que seque rápido – os dois secam rápido – duvido – duvida o que? deixa eu trabalhar – tô olhando aqui a quentinha não tem salmão não – e tem o que? – tem frango – mas do frango da Fabiana eu tô cansada – tira essa cadeira daí que eu vou passar – vai pra onde? – buscar as quentinhas – de que? – de frango caralho é o que tem porra – então tá porra – pode colocar o chinelo? – não moça peraí que tem que secar – mas não era pra secar rápido? – viu eu te falei que era pra colocar o spray – eu coloquei o spray porra – então vai ver era o óleo que secava mais rápido – duvido – tchau moça – tchau até a próxima – e qual pagamento? – ela já deixou pago – eu já paguei – ela pagou Mociara? – ué pergunta pra Lucilene – pagou porra eu falei ela deixou pago – eu deixei pago – então tá moça tchau bom dia tá – boa tarde – nossa mas eu odeio quando eu falo bom dia a pessoa fala boa tarde – essa aí tem dinheiro – tem nada – tem sim que ela deixa pago uma semana adiantado toda vez – eu já to fazendo o esforço de ser educada falo bom dia a pessoa fala boa tarde tomanocu né – e pagar adiantado é ser rico agora – sei lá – duvido – duvido também – rico é quem come salmão – e opera unha encravada – ah operar unha é coisa de rico mermo – vê aí quem tá na minha agenda – pedi a quentinha – de frango? – tem ninguém não – de frango – ah bom porque 8 reais num pão eu não dou – que pão é esse? – o sanduíche – de Maria? – sim de Maria o natural – Maria que ficou internada no SUS uma semanas? – e pode? – pode o que? – ficar internada no SUS – mulher o SUS tem ala de internação – pra unha encravada eu duvido – duvido
vai ser difícil perdoar a tijuca
Flavinho nasceu em Resende, em 81, ainda no regime militar. Por sorte veio na cor certa e descolou um olho azul. As contingências de Flavinho não terminam por aí! Ele seria criado por uma família tradicional, como deve ser: a mãe em casa e o pai militar, casca grossa mesmo. Sempre protegidos pela paz e proteção de Jesus Cristo. Jesus branquinho do cabelo loiro, chiquérrimo. Nunca se importou em saber o que Jesus, supostamente, pregava. Tudo bem, porque Mamãe e Papai falavam muito sobre os valores da família na mesa de jantar. Flavinho aprendeu que até pra ganhar cereal radical, tinha que se esforçar o suficiente. Que na escola ou na rua, por mais bonitinho que o amiguinho fosse, só podia tocar se fosse pra bater. “Bora brincar de lutinha” dizia Little Flávio. Principalmente se o amiguinho parecesse perigoso. E perigoso é qualquer coisa que não coincida com o porta retrato da família no batizado. Ou o que ele vê no espelho. Fora isso é “vagabundo” dizia o Papai, ecoando em suas orelhas. Flavinho estudou porque mereceu, mas nem tanto, porque ouvia no sofá de casa que a escola não contava histórias direito. Sabedoria vinha de casa, que o pai disse. E contava com a mente prolífera de um paraquedista. Se estressa quando ouve professor chamar a ditadura de golpe, que pra ele não aconteceu, foi revolução. Afinal, Flavinho nunca viu ninguém da família sofrer. Aquele negócio: não combina com porta retrato, é vagabundo. Se é vagabundo, fez por merecer. Flavinho começou aula de tiro, porque pessoas como ele são alvo certo e tem de se defender. Chegava em casa pro jantar da Mamãe. Papai na sala gritando com a TV ou com o Rádio: mais uma ameaça comunista. Flavinho cresce vendo Chaves e brinca de ser o Kiko. Até que papai ficou possesso, porque homem não chora. Pediu que escolhesse outro personagem. Flavinho desiste da ficção e escolhe Brilhante Ustra.
O Flávio, agora, é muito preparado pra vida. Se relaciona só com os resultados de fraquejadas,l e identifica marginal de longe– atravessa a rua. Sabe mais do que os professores. Os enfrenta e diz mesmo o que pensa, pois foi lhe dado coragem e dignidade. Na paz do senhor, tem discernimento do certo e o errado. Amém. Foi por isso, apenas porque mereceu, que foi trabalhar com Papai. Que ele fundou empresa lucrativa e contratou todo mundo. Mudou a vida do porta retrato inteirinho. E mais um pouco. Com a graça do Senhor. Bendito é o fruto de Brasília que do vosso ventre nasceram acordos sigilosos. Papai ensinou que tem que ser macho e honesto. E honestidade não tem a ver com a verdade, tem a ver com saber intimidar. Cabra-homem grita. Por isso que Flavinho morre de orgulho de ter um piu-piu. Caralho este que é essencial no vocabulário, graças a Deus. Bem de vida, bem de pai e mãe, bem de cor e bem de igreja. Esse é o menino Flavinho! Que a maioria vença, sempre! A minoria que se curve diante dos feitos de quem manda! Direitos humanos pra humanos de direita! Flavinho tem um espaço no cérebro especial pras frases prontas. Enquanto cresce, percebe que Papai não é muito bem sucedido no que a profissão pede. Suas ideias não se destacam. Muita injustiça o que fazem com esse Papai. Mas, ele aprendeu que demônio boicota o bem. E sabe, que na verdade, são as pessoas que não entendem nada! Comunistas! Como não conseguem ver a instituição familiar que ele criou? Não seria ele, o Flavinho, e os outrinhos filhos, os modelos de uma criação do cidadão exemplar? No churrasco da família, cada um pega sua cerveja, acende seu cigarro e o papo sempre termina nos moleques que usam drogas. O tio coloca a prima no colo, enquanto reclama dos moleques que beijam outros moleques. A oratória aqui é gritaria e palavrão. Churrasco sem linguiça (seu irmão Carlinhos fica triste, mas regras são regras). O cheiro de cloro da piscina conquistada com muito suor, só não é mais forte do que o discurso de Papai sobre a falácia do protetor solar. Que é invenção de comunista. Pele boa é a deles. O tempo passa e o sujeito já é Big Flávio. E é no quintal de uma casa, onde dizem que as paredes são cor de laranja (embora muito patriotas), num condomínio na Barra da Tijuca, lar dos emergentes de sangue bom, que Papai os lembra de quando tinha um gol 1.0. Foram os anos difíceis da família. Isso tudo antes de ingressarem no próprio negócio. Hoje até franquia de chocolate têm. Na paz do Senhor, os churrascos seguem acontecendo. Não há necessidade de comparecer no trabalho tantas vezes. Recebem muito bem, agora com muito mais conforto, os amigos fardados. Um deles vira vizinho, porque se esforçou muito.
E como sofre, o Barra-da-Tijucano! Na opinião de Flávio, a violência no Rio de Janeiro tem que ser combatida por pessoas que sabem se portar. Pessoas como ele. De porte. Policiais e população armada, pra pôr um fim nos vagabundos. “Miliciano? Coisa nenhuma. Amigo da família. Boa gente, garanto.” Depois que Papai disse isso, não há quem discuta com Flavinho: a milícia deve ser legalizada. Ora, os caras só querem ajudar. Como alguém que reside na Barra da Tijuca pode querer o mal pro resto do Rio? “Isso só resolve quando a gente se juntar com a galera que tá no comando,” ele pensa. Onde preta, favelada e lésbica não tem vez. Nem voz. Nem vida. Até chegar aqui, Flávio foi criado como deveria. Não veio de fraquejada. Teve a iniciação em Jesus, molhado de piscina de plástico com roupa branca e tudo. Teve pai e mãe, DNA italiano e deles aprendeu valores-essenciais-patriotas. Cresceu ótimo porque nunca precisou ouvir “eu te amo.” Também não tomou vacina, e passa bem. Não teve mamata nem protetor solar. Hétero pra caramba. Afinal, a família o prefere morto a viadinho. Por isso precisa afirmar-se o tempo inteiro. O irmão caçula já anda por aí dizendo que beijou o condomínio todo. Fofo! Flavinho cresceu do jeitinho que todo mundo gosta. Do jeitinho brasileiro, deitado eternamente em berço esplêndido. Educação com base militar, no olho por olho. Arma em casa. Protegido. Sobre o Papai, a regra é clara: ame-o ou deixe-o. Tão nacionalista que USA a bandeira como uniforme. Um filho como manda o figurino. E você já sabe qual figurino. O início do final da história do menino Flávio, é sensacional. É o motivo deu ter escolhido contar. Não é que mesmo sob todas as circunstâncias e esforços e munições e pastores e chocolate, o menino Flavinho num cresceu e virou bandido, menina? É mole?
review: encomendei uma nyc confiando no produto mas essa porra veio com defeito!!!!!
*Esse texto foi plagiado em 2018. Apaguei na força do ódio, mas é com afeto que o publico mais uma vez.
New York City é gelada até quando é quente. Ninguém tem tempo pra escada rolante e esperar o sinal fechar é coisa de maluco. Aquela velha fofa que entrou no metrô (e ficou em pé) vai te xingar se você a oferecer um lugar. Não olhe pro cara de cabelo rosa! Não olhe! Não olhe pra ninguém! Não sorria, não fale–– mas grite, se quiser. Por que tem alguém conversando no metrô? A pintura viva do capitalismo é o silêncio pela manhã. Me pergunto se aquele sujeito não sabe que seu fone vaza som. Dá licença! O Nova Iorquino não pede desculpa. Excuse-me. E anda rápido! Corra, mesmo que tenha minutos de sobra. Não respira-se fundo em Manhattan. A pergunta do coletivo é “tem alguma coisa fedendo?” e paira sobre o ar de qualquer estação (de trem e do ano). Ufa! Achei café brasileiro no Starbucks! Uma merda. Eu não sabia como viveria todos os dias desse jeito. Havia uma maneira: chorar. Não alivia. Choro de imigrante não traduz nada. Aí o que (ninguém sabe onde) mora o problema. Quando fingi que cansei de reparar, pra fingir que acostumei, notei: New York City é quente até quando é fria. Ninguém tem tempo pra escada rolante, mas se você tiver; há um artista pra assistir. Esperar o sinal fechar é mesmo coisa de maluco, mas se você espera… conhece um indiano (falo com ele todos os dias). A velha fofa me xingou, mas dia desses uma outra–– nada de fofa tinha, me disse que eu era especial. Assim, do nada! You’re special, she said. Hoje, eu olharia pro menino de cabelo rosa e só de sacanagem, sorriria. Faço silêncio no metrô pela manhã, porque meu barulho é burguês e não entende nada. Como Yankee não sabe o que é café, não compro na rua. Bebo um cigarro. Outro dia, conheci uma francesa viajante do mundo e amante do Brasil. Disse que conheceu Goiânia, e eu perdi bons minutos exigindo satisfações. Passei da estação e tive que pegar outro trem pra voltar; na linha amarela eu sou a pessoa com o fone que vaza Jonas Brothers. De certa forma, ando rápido, corro e chego antes. Tá de bom tamanho pra quem cresceu na Barra da Tijuca. Levo tombo todo inverno. Fiz review ruim da bota. Comprei outra, escorreguei de novo. This vagabond shoes… Aí fiz review ruim da minha genética. Minha mãe pediu que eu me acalmasse. Assim, descobri que respira-se fundo–– no Central Park. Chique. A resposta pra pergunta coletiva, quase sempre, é uma pessoa. O que fede é a tristeza. Em Nova York, convive-se brutalmente com cheiro da falta de responsabilidade do Estado. Aprendo na marra, que a felicidade não está fora, mas dentro. De uma garrafa de matte leão. Uma hora a malemolência carioca vai se misturar com a dureza de New York. Eu espero.
escrito 4 de abril de 2016.
caixote ou caldo ou vaca ou qualquer outra variação regional
Nos nossos votos de casamento, escolhi falar sobre o nome dela. Se existiam sementes dentro de mim, quando descobri que ela também escolheu falar do meu, me tornei um jardim (infinito) de prazeres cantados em onomatopéias. Há uns anos, escrevi minha primeira música. Tinha acabado de começar a fingir que aprendi tocar violão. Metida que sou, compus “catavento” aos 16 anos. Na época, jurava-que-sentia-que-minha-vida-era-rodar-e-rodar e nem sempre saber quem me soprava. Aceitava que ele, o vento, levasse tudo, sem controle. Nada moderno como o “deixar ir” que isso eu não sei fazer. Mas se era pra voar que fosse rumo ao caos em formato-furacão. Foi aos 21 (como previu a mãe de santo) que casei com a moça que se chama Gira. Parecia uma brincadeira das estrelas. Tudo foi desenhado pra que minha cisma em acreditar em ciclones e não nos ciclos, encontrasse o momento em que eu andaria rumo ao Sim. Nalu significa onda. E gira, significa o que você quiser. Como choveu naquele onze de julho! Tempestade–– vento e água e relâmpago e trovão, lavando tudo na mesma medida que empretecia as vestimentas brancas, como manda a Umbanda. Eu e ela, filhas de fenômenos naturais, girando na loucura em ondas, como caixote ou caldo ou vaca ou qualquer outra variação regional da palavra. Juntas fomos a semântica que um dia engoliu muita água salgada. Hoje, tomamos o banho de doce-contraste. Amor que não é bronzeado é chato. Quando noivamos, decidimos que nossas respostas ao mundo seriam músicas sem significado. Tatuagem de tatuagem. Bolo de cake. A repetição na voz de Cássia na letra de Nando quando diz que não tem explicação… Pra quem quiser saber, casamos porque dividimos o chamego abrasileirado do Caetano-sem-propósito “pra lá de Marrakesh, mexe qualquer coisa dentro, doida, já qualquer coisa doida, dentro, mexe.” O amor caribenho celebra horas efêmeras da rotina e por isso é eterno em todo milésimo de segundo. Sem enganos, esse amor é também telegrama. Uma carta do presidente, oficial, coisa de gente importante. Você não entende nada, nem eu, a gente não entende nada, nem nós. Porque se tiver que explicar a gente perde a beleza de se perder nas imperfeições. O que não conseguimos decifrar é o que nos mantêm na busca–– não por sentido, que essa palavra quando brega, soa pretérito. O casamento é a esperança verbal mais bonita na conjugação em futuro do presente.
o que rege minha mãe
Amanhece chuvoso, treze de maio de dois mil e dezenove. Tempo ruim como em dois mil e nove e todos os anos pra frente que me lembro. Há 10 anos papai morreu nesse dia. Se minha garganta dói é de pólen ou saudades. O gosto amargo na língua são as palavras não ditas. Agora serena, abro um pote de sorvete e pego o telefone–– afinal, é dia das mães, justo hoje. Minha mãe quando conversa feridas, arruma maneira de terminar em um sorriso virginiano perfeito, ensaiado a vida toda. Por mim tudo bem, porque ao final, o que ela cobra mesmo são palavras escritas. Mal acostumada. Casou com um poeta e pariu uma também. A vida inteira organizou maneiras de burlar obstáculos, orquestrou contra juízes (tribunais e familiares), dançou essa valsa, plantou coragem em terras virginianas, estendeu ao mundo a mão cigana e nos trouxe até aqui. Plural porque somos três filhos de Anna Beatriz e Paulo. Eu falo de pai e mãe e ouro de mina. Entendo tanto do assunto quanto entendo Açaí de Djavan. Assisti de outro fuso, minha mãe se tornar, finalmente, gente. Que organiza e orquestra e dança (virginianamente) só a própria vida. Foi pra essa nova mãe que eu liguei. Essa que, dia desses considerou o cabelo natural, do jeito que era quando eu nasci. Aí achei uma loucura Freudiana demais. Fui contra. Não consigo pensar que ela ainda vai mudar muito de aparência. Quando minha mãe sentiu que terminou a jornada por nós quatro, decidiu pegar uma nova estrada. Só não achei que fosse a de caminho à São Pedro da Aldeia. Fui contra. “Porra, mãe! região dos lagos?”
Nessa nova fase minha mãe viveu medo, dor e até cirurgia. E eu longe. Sobre isso eu não falo, eu soluço. Outra coisa que sou contra é a doença dela. Aliás, a coisa menos mãe que uma mãe pode ter é problema no coração. Se eu pudesse processava Jesus Cristo, que começou com essa merda de coração que entra pro sacrifício pelos filhos. Quando escrevo nos dias treze de maio, é pra lembrar que certos anos atrás, uma parte de você também morreu com papai. Mas reiniciou sob as poças de lágrimas na triliche do nosso quarto, pra se tornar uma mãe mais pessoa. Sem escolha, sozinha, foi uma família inteira. Às vezes eu acho que apenas a minha mãe poderá salvar o núcleo e manto e costa do planeta. Penso: quem dera se os cidadãos (e o engenheiros civil) conhecessem as soluções rapidamente-sensacionais que ela tem na ponta da língua. Amo minha mãe-ser-de-terra e planta e árvore e oceano e céu e o universo inteiro e cosmos e suas luzes e o que tiver depois de tudo que vocês duvidam que existe. Eu não duvido de nada, porque sou filha da minha mãe.